Posse

José Sarney conquistou o governo do Maranhão aos 35 anos de idade, nas eleições de outubro de 1965, recebendo votação inédita na história do Estado: 121.062 votos, o dobro do segundo colocado, Antônio Eusébio da Costa Rodrigues, candidato do PDC. Assumiu em janeiro de 1966 seu primeiro cargo executivo. Por decisão do novo governador, a festa foi transferida do Palácio dos Leões para a Praça Pedro II. Uma multidão entusiasmada o acompanhou.

Sarney foi eleito para comandar um território de 340 mil quilômetros quadrados com pouco mais de 3,5 milhões de habitantes espalhados por 128 municípios. Herdou do vitorinismo uma realidade cruel. Todo o interior não registrava a presença de 20 médicos. A média de vida da população era de 29 anos. Cerca de 24% eram atacados pela malária, e 86% pela verminose. Persistiam altos índices de tuberculose e lepra, e a incidência da varíola ainda configurava epidemia. Em torno de 60% das crianças entre 7 e 14 anos não freqüentavam a escola.

 

Posse governador sarney

Posse Governador. Foto: Rubens Barbosa

 

Obras fundamentais como o porto de Itaqui e a ponte de São Francisco continuavam no papel. Havia 7.500 Kw instalados de energia em todo o Estado, quantidade inferior ao consumo de um único edifício no Rio, o Avenida Central. Mais de 80% dos habitantes viviam no campo, cultivando arroz para comer ou coletando babaçu, totalmente sem assistência de moradia, saúde, educação e segurança. Não havia nenhum quilômetro de estrada asfaltada. As de terra só davam passagem no verão, quando não chovia.

No discurso de despedida da Câmara, Sarney mostrou-se consciente do que teria de enfrentar:

Devo começar apresentando-me como governador e representante do Brasil da pobreza e do atraso, um Brasil contemporâneo do outro Brasil da riqueza e do progresso, mas profundamente antagônicos os dois, no sistema de vida e na maneira de pensar.

Esta situação de pobreza extrema que José Sarney encontrava no Maranhão necessitava de um registro definitivo. Convocou então o jovem Glauber Rocha, iniciando sua carreira e preparando “Terra em Transe” para documentar em filme o que via e ouvia. Surgiu assim um dos mais comoventes testemunhos da história da sociedade brasileira, um filme que, em doze minutos, concentra toda a emoção dos dias trágicos de que saía o povo maranhense: a miséria do Maranhão, a pobreza do Maranhão, as esperanças que nasciam no Maranhão, dos casebres, dos hospitais, dos tipos de rua, e, no meio de tudo, a voz de Sarney, mas não a voz de Sarney — modificando a ciclagem, a voz de um fantasma profético, diante do choque entre o impossível e a miséria do estado.

Ele não filmou a minha posse, mas a pobreza do Maranhão e a esperança que nascia nos casebres, nos hospitais, nas ruas. Ele colocou a minha voz, mas a modificou eletronicamente para que soasse como a de um fantasma profético, entre um sonho que parecia impossível e a miséria bem real do Estado.

Sarney provocou uma revolução na administração, chamada de “milagre maranhense”. Os investimentos duplicaram, aumentando em 2.000% o orçamento do Estado.

Vindo das camadas mais humildes do povo, pobre, sem pertencer a família ilustre, consegui, com duro sacrifício, com áspera e indormida luta, exercer uma liderança política de que tenho profundo orgulho.

Proclamação de Sarney Posse

Juramento de Sarney como governador na Assembléia Legislativa, em 1966. Foto: Rubens Barbosa

 

 

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