Crise de 68

O ex-presidente Juscelino Kubistchek viajou a São Luís como homenageado da primeira turma de economistas da Universidade Federal do Maranhão, da qual Sarney era paraninfo. Enfrentando as cautelas que o aconselhavam a nem ao menos comparecer à formatura, Sarney não só participou da formatura, mas, como governador, fez questão de tributar ao ex-presidente todas as honras e homenageá-lo com um almoço, saudando-o como “Meu presidente!”.

Essa homenagem de Sarney a Juscelino aconteceu no dia 12 de dezembro de 1968. Vinte quatro horas depois, no dia 13 de dezembro, o presidente Costa Silva baixou o Ato Institucional Nº 5.

josé sarney

Juscelino Kubitschek, em passagem por São Luís, foi paraninfo dos formandos da Escola de Economia. Sarney foi patrono. Foto: Arquivo pessoal.

O fantasma da cassação pairou por vários dias sobre a cidade de São Luís e boatos davam como certa a punição de Sarney. A homenagem a Juscelino não era digerida pelos militares. Com o Congresso fechado e aberta uma nova temporada de cassações, tudo podia acontecer.

Juscelino refletiu a expectativa corrente na carta que enviou a Sarney agradecendo a recepção em São Luís: “Estou receoso por você.

O próprio Sarney, porém, mostrou-se consciente dos riscos que corria, mas, também, que não era oportunista, nem covarde, muito menos temerário. Escreveu uma proclamação que o consagraria, principalmente porque foi lançada justamente quando eram grandes as possibilidades da inquisição militar atingi-lo:

             “Fui eleito pelo povo, meu mandato trouxe a marca da luta e só foi possível graças à moralização eleitoral, às garantias surgidas e à liquidação das oligarquias políticas, obra, como tantas vezes afirmei, da Revolução que eu apoiei e por ela fui apoiado. Isto, contudo, nunca me obrigou a negar a minha consciência, a não externar pontos de vista, tomar ou deixar de tomar atitudes que eu achava compatíveis com a minha vida pública.

               Meu mandato é um mandato livre, que me foi outorgado pela vontade popular, tenho procurado exercê-lo com absoluta independência e no dia em que não puder mais fazê-lo não poderei prestar serviços ao Maranhão. Nessa hora, o meu caminho é o caminho da minha casa, de cabeça erguida, mas respeitado e sendo digno do nome e do povo desta terra. Não posso parecer nunca subalterno, omisso ou açodado. Tenho noção da grandeza do cargo que ocupo e das minhas responsabilidades com o passado, com o presente e com o futuro do Maranhão.”

Foi o único governador do Brasil em 1968 a não concordar com o AI-5.

AI-5

Em 13 de dezembro de 1968, o General Costa e Silva decretou o AI-5. O ato concedia poder ao presidente da República para intervir nos estados e municípios, sem respeitar as limitações constitucionais.

Costa e Silva ainda poderia suspender os direitos políticos, pelo período de 10 anos, de qualquer cidadão brasileiro.

Sarney, que na época governava o Estado do Maranhão, foi o único governador que não apoiou o AI-5.

            “Ao contrário dos demais governadores, que passaram telegrama de apoio, eu não passei. Quando eu passei o telegrama, foi para dizer que eles deveriam, o mais rápido, sair daquela situação e buscar um sistema democrático pleno para o Brasil.”

 

 

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