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Os Maribondos de Fogo

O livro é o segundo de poesia de Sarney. Em 1986 foi lançado em Lisboa, com prefácio de João Gaspar Simões. O crítico português avaliou, na oportunidade, que Sarney escrevera a obra com os olhos e os sentidos postos na terra do Maranhão, “a sua terra, a terra da sua infância”. Para Simões, Sarney imprime aos poemas que formam o seu livro, estruturado em forma de romance, algo que é parte integrante da tradição do lirismo brasileiro. “Qual seja, a faculdade de o poeta do Brasil, ao contrário do de Portugal, preferir o que vê ao que sente e no que sente nunca deixar esquecer o que vê graças a essa ancestral forma narrativa, o “romance” ou “rimance” mais castelhana, afinal, do que portuguesa ou galego-portuguesa”, avaliou. A poesia de Sarney é ainda, para Simões, algo que faz parte de uma tradição que, embora de pouca idade que começa com os poetas do chamado “verde-amarelismo” de 1922, mergulha fundo na história da linguagem poética. “É um mergulho visceral às suas raízes maranhenses e, talvez mais do que isso, às raízes poéticas da própria linguagem portuguesa”, afirmou, por sua vez, Ivan Junqueira, o escritor e colega de Sarney da Academia Brasileira de Letras.

 

 

Maribondos de Fogo

Capa do Livro Maribondos de Fogo

 

Críticas

Os Maribondos de Fogo

“…Com os olhos e os sentidos postos na terra do Maranhão, a sua terra, a terra da sua infância, eis como José Sarney imprime aos poemas que formam o seu livro, romanceadamente estruturado, algo que é parte integrante, já hoje, de uma tradição do lirismo brasílico, qual seja, a faculdade de o poeta do Brasil, ao contrário do de Portugal, preferir o que vê ao que sente e, no que sente, nunca deixar esquecer o que vê graças a essa ancestral forma narrativa, o romance ou rimance, mais castelhana, afinal, do que portuguesa ou galego-portuguesa…

“Não foi Baudelaire quem escreveu que la poésie est l’enfance retrouvée? Ora, a poesia de José Sarney, quanto a nós, pelo menos neste seu livro, não só é algo que ele reencontra na sua infância passada nas terras sertanejas do Maranhão; também é algo que faz parte de uma tradição que, embora de pouca idade, que começa com os poetas do chamado “verde-amarelismo” de 1922, mergulha fundo na intra-história da linguagem poética que entre nós, em Portugal, chegou a pensar-se a mais antiga – o romance ou rimance – quando, afinal, acabaria transferida senão direta, indiretamente, da Espanha para as terras descobertas por Cabral…

“José Sarney, quanto a nós, figura entre os poetas modernos do Brasil em cujo estro vemos o que de mais castiço se nos afigura de considerar numa maneira poética que principia a impor-se como legitimamente brasílica. E por isso mesmo me parece que temos de olhar para os versos de Os maribondos de fogo como para algo que nos revela um lirismo com uma medida que o lirismo português não tem. Nesse lirismo o eu do lírico e o eu do povo são como que reflexos um do outro. E, assim, neste claro poeta do Brasil se nos depara um eu lírico não à maneira lusíada – essencialmente subjetivo – , mas um eu lírico de propensões objetivas, digamos, esse eu, entre lírico e dramático, que os poetas brasileiros, agora, mais do que nunca, estão, finalmente, a fazer seu e bem seu”.

“A poesia de José Sarney não se resume a nenhum exercício lúdico, constituindo antes uma funda experiência de vida, um mergulho visceral às suas raízes maranhenses e, talvez mais do que isso, às raízes poéticas da própria linguagem portuguesa que, como agudamente observa João Gaspar Simões no prefácio que escreveu ao livro não estão nos artifícios e artimanhas do arcadismo do século XVIII, e sim na tradição narrativa do romance (ou rimance) castelhano, essa espécie de “canção de gesta” que inerva o romanceiro galego-português. E Os maribondos de fogo resgata exatamente essa lição, acrescentando-lhe, contudo, uma outra: a do predomínio da objetividade sobre a subjetividade, o que dá origem, na poesia que se escreveu entre nós durante a segunda metade do século XX, a um lirismo no qual, como sublinha ainda uma vez João Gaspar Simões, “o eu do lírico e o eu do povo são como que reflexos um do outro”.

José Sarney e as fontes da Poesia Brasileira

Pensou o nosso Almeida Garret que indo buscar ao Romanceiro nacional os laços que atavam a poesia portuguesa do seu tempo, princípios do século XIX, poesia desatada da tradição medieval por obra e graça dos artífices das Arcádias e de outras maneiras poéticas mais ou menos importadas, recuperaria o que fora perdido, isto é, o acento castiço da lírica lusíada. Enganou-se, como todos sabem. O nosso Romanceiro era de surto castelhano, andava relacionado com a “canção de gesta”, medida poética de tradição epopéica, coisa que nada tinha a ver com a mais visceral ancestralidade da poesia portuguesa. E daí resultou o gosto narrativo da poesia romântica implantada por Garrett – diria melhor, ultra-romântica – que, à parte algumas excepções, em que se contam as Folhas Caídas, do mesmo Garrett, redundou nas ladainhas, entre sentimentais e dramáticas, em que avultam os poemas-romances como A Noite do Castelo, de Castilho, o pontifex maximus desse mesmo ultra-romantismo, ou o D. Jaime, de Tomás Ribeiro, um dos seus mais exaltados discípulos. De qualquer maneira era lição do “romance” ou do “rimance” que moldava o corpus de toda essa poesia.

Afinal aquele a quem então chamavam “ O Divino” cairá em pecado, cometerá um erro. O “romance” ou “rimance” não era o esquema lírico que restituiria a poesia nacional às suas fontes primevas. Essas fontes, as verídicas fontes do lirismo português, estavam noutro lado, precisamente no gênero de poesia que se furtava à narração, esquema fundamental do “romance” ou do “rimance”: estavam na “cantiga de amigo” ou no “cossante”, espécie de canção muito rêmora, tão rêmora no Nordeste da Península Ibérica que porventura já lá estaria, na voz do povo que cantava e dançava nos terreiros, quando, pelo “caminho da França”, ali chegou a “cantiga de amor” provençal. Nessa altura, na altura em que Almeida Garrett quer introduzir a moda romântica na pátria portuguesa, pouco ou nada se sabia, porém, da existência desse lirismo como que autóctone. Em verdade ainda seriam precisos muitos anos para os eruditos o descobrirem e pelo menos meio século quase para um poeta nosso, João de Deus, ao ler outro poeta, português de berço e brasileiro de condição, poeta que em menino ouvira, na Baía, naturalmente na boca dos crioulos, a chamada “modinha brasileira” – estou a falar de Tomás António Gonzaga, autor da Marília de Dirceu – quase sem querer, recuperar o passado perdido. Em boa verdade, a “modinha brasileira” estava mais perto da “cantiga de amigo” do que do “romance” ou do “rimance” arvorado em modelo legítimo da mais antiga forma de se ser poeta na terra portuguesa.

Bem certo que no século XVII já um lírico de tão puto acento como esse Francisco Rodrigues Lobo das “pastorelas” que esmaltam a Primavera ou O Pastor Peregrino cultivara o “romance” ou “rimance”, publicando, na juventude, uma obra intitulada Primeira e Segunda Parte dos Romances, obra na qual incluía uma Carta aos Romancistas de Portugal a quem chamava de “falsários”. “Falsários” porquê? Porque todos os que entre nós o faziam, todos que escreviam romances imitavam os Espanhóis que então cultivavam essa espécie de medida poética conhecida por “romance mourisco” na pátria de Góngora. E se ele, Rodrigues Lobo, não se incluía no número dos poetas portugueses “falsários” era, afinal, porque, quase todos os seus “romances” ou “rimances” os escrevia não em vernáculo, mas, mesmo, em castelhano.

Ora, curiosamente, é no Brasil colonial, onde a poesia começara arcádica, que o lirismo da língua portuguesa, como dissemos, e graças a Tomás António Gonzaga, mau grado a sua Marília de Dirceu ainda manter, de algum modo, certo teor narrativo, que, através da chamada “lira”, esquema métrico paralelo ao esquema galego-português germe da “medida velha”, a poesia, feita “romance” ou “rimance” no tempo de Almeida Garrett e dos ultra-românticos, recupera o perdido sabor medieval impregnado do modulo cantábile da “cantiga de amigo”. E, assim, regressava o lirismo da nossa língua ao molde primevo, à fonte pura dos Cancioneiros galego-portugueses.

É fugaz, valha a verdade, a recuperação, em terra do Brasil, de tal metro arcaico. Quanto a nós, até entre os poetas românticos das terras brasileiras – um Gonçalves Dias ou um Casimiro de Abreu – se nota já o regresso ao esquema que os próprios românticos portugueses veneraram – o esquema narrativo de tipo “romance” ou “rimance”. E quando não é esse esquema, o esquema a que Francisco Rodrigues Lobo chamara de “mourisco”, é um esquema de certo modo preferentemente mais narrativo ou objectivo do que imóvel ou cantábile (o esquema, portanto, da “cantiga de amigo”) que, em verdade, prepondera nos poetas mais genuinamente brasileiros. É ver o que sucede à poesia das terras de Santa Cruz depois de 1922 – da chamada Semana de Arte Moderna de São Paulo. Aí, salvo em alguns cultores de uma espécie de medida a que ousaremos chamar ainda de “medida velha” – estou a pensar em Manuel Bandeira – pela sua maior parte os líricos do “verde-amarelismo” são antes preponderantemente objectivos – de índole “romancística”, portanto – do que de índole lírica à maneira medieval portuguesa ou galego-portuguesa. E é nessa orientação que, no nosso tempo, vamos encontrar um João Cabral de Melo Neto, primeiro, e agora um José Sarney, autor destes belos versos de tipo mais ou menos “romancístico”, digamos, os belos versos de Os Maribondos de Fogo, no esquema, quanto a nós, tipicamente brasílico, o esquema desse entre nós, em Portugal, quase perdido “romance” ou “rimance”.

Eis-nos perante uma poesia que, graças ao molde que Almeida Garrett supôs o molde mais ancestral do lirismo lusíada – o molde “romance” ou “rimance” – confere ao lirismo de linhagem brasileira legítimas qualidades. Narrando mais do que cantando – é ver como são, pela maior parte, do tipo “romance” os versos de Os Maribondos de Fogo (a sua última parte intitula-se, mesmo, de Romanceiro) – assim José Sarney, aliás notável prosador narrativo em livros como Norte das Águas, contos sertanejos, ocupa lugar, por direito próprio, numa tradição lírica que desde 1922 de algum modo aspira a considerar-se a mais legitimamente brasílica. Com os olhos e os sentidos postos na terra do Maranhão, a sua terra, a terra da sua infância, eis como José Sarney imprime aos poemas que formam o seu livro, romanceadamente estruturado, algo que é parte integrante, já hoje, de uma tradição do lirismo brasílico, qual seja, a faculdade de o poeta do Brasil, ao contrário do de Portugal, preferir o que vê ao que sente e no que sente nunca deixar esquecer o que vê graças a essa ancestral forma narrativa, o “romance” ou “rimance” mais castelhana, afinal, do que portuguesa ou galego-portuguesa.

Desta sorte permitem-se os Brasileiros, voltados para o lirismo, um tipo de poesia onde, ao invés da nossa, em que antes de mais figura o eu, aquele que vê e sente, pelo contrário figura o outro – aquele que é visto e é sentido.

Não foi Baudelaire quem escreveu que La poésie est l’enfance retrouvée? Ora a poesia de José Sarney, quanto a nós, pelo menos neste seu livro, o livro que presentemente se edita em Portugal, não só é algo que ele encontra na sua infância passada nas terras sertanejas do Maranhão – nesse Nordeste brasileiro que nos deu os mais poderosos narradores da moderna prosa do Brasil, sem esquecer o próprio José Sarney – também é algo que faz parte de uma tradição que, embora de pouca idade que começa com os poetas do chamado “verde-amarelismo” de 1922, mergulha fundo na intra-história da linguagem poética que entre nós, em Portugal, chegou a pensar-se a mais antiga – o “romance” ou “rimance” – quando, afinal, acabaria transferida senão, directamente, indirectamente, da Espanha para as terras descobertas por Cabral. Não são os poetas arcaicos da época colonial que impõem a sua voz aos poetas genuinamente brasílicos, nem tão-pouco os poetas tipicamente subjectivistas nossos, gênero António Nobre, idiossioncraticamente portugueses, antes os poetas que de certo modo recuperam o tipo narrativo cuja medida se transferiu naturalmente de certa tradição popular de cá para a tradição sertaneja brasileira.

José Sarney, quanto a nós, figura entre os poetas modernos do Brasil em cujo estro vemos o que de mais castiço se nos afigura de considerar numa maneira poética que principia a impor-se como legitimamente brasílica. E por isso mesmo me parece termos de olhar para os versos de Os Maribondos de Fogo, como para algo que nos revela um lirismo com uma medida que o lirismo português não tem. Nesse lirismo o eu do lírico e o eu do povo são como que reflexos um do outro. E assim, neste claro poeta do Brasil se nos depara um eu lírico não à maneira lusíada – essencialmente subjectivo – mas um eu lírico de propensões objectivas, digamos, esse eu, entre o lírico e dramático, que os poetas brasileiros, agora, mais do que nunca, estão, finalmente, a fazer seu e bem seu.

João Gaspar Simões,
Escritor português, crítico literário e jornalista, foi o responsável pelo lançamento no mercado editorial do poeta Fernando Pessoa

 

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