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Brejal dos Guajas

 

Um político no reino da fábula *

As inevitáveis comparações entre o escritor e o político que coabitam numa personalidade complexa como a de José Sarney, convergem sistematicamente para um julgamento apoiado em padrões convencionais de competitividade: a consagração de um e a condenação do outro.

Essa relutância em aceitar que o político e o escritor se completem vem postergando uma definição em torno da obra que José Sarney realiza simultaneamente na vida pública como no âmbito literário.

Aos que ainda cultivam a superstição de que a literatura enfraquece a atividade política, ele responde com as conquistas sucessivas de uma escalada segura no rumo das mais altas posições na República.

Aos que se apegam ao lugar-comum de que o exercício da política sufoca a criatividade artística — fugindo assim à evidência de reconhecer-lhe os méritos de escritor —, ele refuta com a própria produção literária, que é, no seu caso específico, a soma da índole e da vivência políticas.

Porque a verdade é que José Sarney é um escritor político, da mesma forma que é um político escritor. Político no amplo sentido em que atinge a abrangência aristotélica. Político sob a angulação microcósmica do regionalismo, como gênero por ele escolhido para postular através da documentação.

Se a política lhe ensombrece a vocação literária, há de convir-se que é da política que ele extrai a matéria-prima de sua literatura, em que se fundem harmoniosamente o documental e o reivindicatório. As três histórias que compõem esse volume confirmam esta assertiva.

Dentre estas histórias a mais significativa e a que melhor ilustra nossa observação é o Brejal dos Guajas, peça importante do livro básico de Sarney — O Norte das Águas, já com duas edições brasileiras e uma portuguesa. Nessa novela, o autor se enquadra de maneira exemplar na conceituação de Arnold Bennett, quando sentencia que a arte da ficção “não é a de transformar em interessante uma história sem interesse, valendo-se de habilidade literária e de lances teatrais, mas a arte de contar uma história intrinsecamente interessante”.

No exíguo espaço de uma localidade aparentemente insignificante, cujo ambiente é sufocado pela atmosfera de rivalidade entre dois chefes políticos, pertencentes à mesma legenda partidária, porque ali não existe nem a hipótese de uma corrente de oposição ao governo, José Sarney consegue movimentar, com rara agilidade, as figuras que vão garantir o interesse do leitor durante toda a narrativa.

Despojado de artifícios do pitoresco e sem fazer concessões às tipicidades e cacoetes do regionalismo acadêmico, Sarney comprova aí a sua habilidade política, ao conseguir movimentar-se, sem com eles comprometer-se, entre gêneros literários afins, como a crônica, a farsa teatral, a simples anedota. Ele se propõe a contar uma história e não se afasta desse intento. Conta — com princípio, meio e fim, rigorosamente dentro do modelo preconizado por Aristóteles.

Trecho do Prefácio de Brejal dos Guajas
Lago Burnett – Jornalista e escritor brasileiro.

 

 

 

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