Início » Discursos » Um Maranhão Pobre, Uma Esperança Rica

Um Maranhão Pobre, Uma Esperança Rica

Em 04-12-1965

A Justiça Eleitoral entrega-me, de maneira formal, o direito de governar o Estado. Direito que me foi dado pelo povo, pela sua vontade soberana, pelo seu desejo de mudar, pela sua confiança, pelo seu sacrifício, pelas suas esperanças, pelas suas angústias, pelo seu viver e morrer nessa vida em que o homem era o ente abando nado e só, sem amparo e assistência, e onde a presença do Estado era apenas o·vazio que se perde entre uma e outra choupana dos quebradores de babaçu, dos rocei ros, dos sitiantes, dos boiadeiros e ambulantes, isto para dizer dos campos, e, nas cidades, o cheiro de lama e maresia dos barracos e palafitas, os problemas que afli gem o operário e o patrão, e onde todos se encontram irmanados por uma coisa que a todos atinge: o contraste de um Maranhão potencialmente rico, fabulosamente poderoso, e um Estado pobre, de gente pobre, sem recursos, sem nada, procurando engatinhar para o progresso e banido nos seus primeiros passos, poraquilo que nós no Maranhão tanto conhecemos: o Maranhão dos mais baixos processos políticos e admi nistrativos, das mais altas taxas de mortalidade infantil e analfabetismo e das mais baixas taxas de saúde e de vida média. Este Maranhão grande, do nosso encanto e do nosso amor, aberto sem porteiras para o saque e o abandono, Maranhão dos Maranhões.

O voto não é um processo que se extingue no dia das eleições nem na hora de sua contagem. Ele é um fato político longo, de profundas implicações sociais e de grandes opções cívicas. Tenho a perfeita noção do que existe neste extrato de ata e sei que esta solenidade de que todos participamos é apenas um gesto legal. O diploma é um símbolo e eu posso ver, nestas letras e neste papel, o desejo soberano daqueles que me fizeram mandatário de suas vontades.

Quadro por mudar

Ai, estão as multidões que me ouviram das mar gens do Tocantins às margens do Parnaíba na certeza, de que aí estão sepultados vinte anos, e não só vinte, de violências, de liquidações de direitos humanos, de nepo tismo, de empreguismo, de afilhadismo, de subserviên cia, de abastardamento, de crimes, de perseguições, de estrangulamento das vocações jovens tangidas pela incompetência, de tristeza dos velhos pela miséria dos seus dias. Ai está aqueles homem que caminhava do Maranhão ao Rio a pedir justiça para os seus genros e filhos mortos pela tirania policial, aí está a figura daquele Vitorino Assunção, mutilado, gritando com suas muletas ao alto, “liberdade, liberdade” na poeira da estrada de São Mateus; aí está aquele comerciante de Santa Luzia com sua loja de portas fechadas há dois anos, surrado e escorraçado pelo crime de ser divergente, ai estão aqueles homens presos, amarrados por correntes, ao tronco de uma árvore em D. Pedro porque a cadeia era a corrente e a árvore; aí está o semblante daquele caboclo impaludado e triste de Fortaleza dos Nogueiras, nos confins do Maranhão, com apenas um calção para vestir, e que dizia possuir somente “a fome, o dia e a noite, uma mulher doente e dois filhos”. Aí estão aqueles que morreram e não viram a vitória, aí estão aqueles que foram injustiçados e sucumbiram, os que foram fracos e combaliram, os que foram fortes e venceram. Ai está a vontade de mudar, aí está o desejo de um Maranhão melhor, mais limpo e mais honrado com a polícia a serviço da ordem, com o Estado a serviço da comunidade, com a vida pública estruturada em termos altos, o desejo de um Governo mais humano e mais justo.

À Justiça Eleitoral agradecemos a participação limpa, com gestos e exemplos, como a do Procurador Nicolau Mader e Ministro Henrique Andrade, que a serviço da lei aqui estiveram e contaram com a cola boração de seus eminentes colegas do Maranhão, para uma eleição isenta e insuspeita.

Às Força Armadas, que, colaborando com a Justiça Eleitoral, na alta determinação de seus comandantes e comandados, asseguraram a liberdade do voto, o direito da escolha e aniquilaram as manifestações do policia lísmo a serviço da deturpação da vontade popular. O governo do Marechal Castelo Branco, no seu espírito público e na sua missão, proporcionou o clima de garantias e da normalidade democrática há tantos anos esperado e sempre negado à nossa terra.

Diploma do povo

Este diploma é do Povo. Todos no Maranhão me conhecem e conhecem o fruto desta luta, os sacrifícios e o longo caminho percorrido. E sei eu das tremendas responsabilidades que pesam sobre meus ombros. Res ponsabilidades que aceitei e que seduzem: as maiores entregues à minha geração. Com inflexível energia o que depender do esforço de um homem, da vontade férrea de acertar, de abusar da vigilância indormida contra a corrupção administrativa, o que depender de minha autoridade saberei cumprir e peço a Deus que me ajude para que o faça. Contudo, meu esforço, se for somente meu, será nulo e pouco. A tarefa é de todos, co-responsáveis neste vento novo que sopra no Mara nhão. Vento de planejamento, da administração em bases científicas e das decisões governamentais alicer çadas em critérios éticos.

Deus é testemunha da satisfação que tenho, da gratidão que tenho ao Povo, às forças de Oposição que me apoiaram e aos que aqui me estão honrando com a presença.

Temos pela frente uma grande missão: presidir a batalha do progresso, num Governo jovem, jovem nos métodos e no vigor, respeitado e respeitável, Governo de equipe, de homens honrados, de gente eficiente, para reacender as chaminés apagadas de nossas fábri cas, preparado para o bem-estar social, para esperança da Energia de Boa Esperança, do petróleo de Barreiri nhas, jorrando, da Universidade do Maranhão como centro dinâmico de cultura, das estradas rasgando as nossas matas, do porto do Itaquí saindo das imagina ções para as certezas, escolas, ambulâncias rurais e em tudo a presença deste voto de confiança do Povo, que este diploma encerra, exprimindo o resultado de uma eleição que foi um gesto de liberdade.

Renovo aqui o nosso juramento de servir até o sacrifício ao Estado que me viu nascer, este grande Maranhão que haveremos de fazer maior.

 

Leia também: