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Os Homens Envelhecem para Saber que Foram Jovens

A juventude não é somente um estado de saúde das células, um momento biológico dos começos da vida. Ela é um núcleo de fogo, um sistema solar onde se processam explosões e se deflagram tempestades de energia em imensas massas moleculares.

Por esse motivo ela não é uma doença, ela é uma febre que, ao se apagar, constitui a negação da própria vida. Os homens envelhecem para sentir que foram jovens. E o que é a juventude senão um estado de criação, aquele sentimento que Deus possuiu, quando, sendo eterno, quis renovar o mundo e fez a Terra e fez a luz e fez os pássaros e fez o homem, dando a este o poder de modificar a natureza? É esse sentimento de coisas novas a essência de ser jovem.

A sociedade industrial e seus condicionamentos técnicos e os meios de comunicação transformaram esse sol que é o moço, substantivo comum, singular, em nome coletivo, a Juventude, que em todos os lugares e em todas as idades deseja construir o seu próprio destino, não dominando a Natureza, mas, criando, ela sim, a sua própria natureza, sendo o seu próprio Deus e o seu próprio Gênese.

O mundo da juventude é o mundo da renovação, reformar, introduzir novas técnicas, destruir estruturas arcaicas, e um imenso desejo de caminhar sempre ao lado da História, construindo-a.

Assim, a juventude é um desejo de criar um estado da natureza que pode ser dos homens e de todas as coisas.

Nós podemos dizer que esse sentimento de inconformismo, esse desejo de mudar, de crescer, de romper as barreiras do atraso é um gesto de criação, é uma força jovem e irresistível que hoje une a todos nós, homens e mulheres de todos os Estados desta região além dos nossos limites físicos e das nossas estruturas políticas. Esse sentimento mudou a geografia destas paragens, a seca e os retirantes, a imagem do mandacaru e dos corumbas, para ser a imagem do novo Nordeste, nome de vossa turma e hoje, mais que um slogan, um Estado permanente de nosso espírito.

E hoje, a cada dia, os jovens da nossa região, responsáveis pelo futuro, cada vez mais constroem a tese de que “o subdesenvolvimento é uma injustiça sócio-econômica” e não aceitam o contraste da riqueza e da pobreza comparadas com “outros povos ou outras regiões do seu país”. Daí o seu inconformismo. E é muito melhor a “agitação do que a estagnação”.

Identificação com a juventude

Eu, de minha parte, posso dizer que é aí, justamente aí, nesse desejo de transformar, de criar coisas novas, de ir para a frente, que me encontro com os senhores e os senhores me encontraram, para ser o vosso Paraninfo, numa homenagem que me orgulha e me cativa, mas que não me faz esquecer, que ela só é possível e justificada se eu, sendo eu, seja também vós, sentindo os mesmos sentimentos, vivendo as mesmas esperanças e vencendo as mesmas angústias, e podendo repetir “mon semblable, mon frêre .”

De onde vêm, portanto, essa união e essa identidade? A resposta é uma só: do Nordeste, no que ele tem de sua imensa força interior, de suas riquezas potenciais, com os desejos de transformação e essa inesgotável fonte de recursos humanos, tão vasta e poderosa, desejando ao mesmo tempo ser sujeito e objeto dessas transformações.

Nosso estuário de união é a palavra Novo. O Novo Nordeste. Um antigo provérbio taoísta dizia: – “Não introduza inovações.” Realmente, existem perigos, resistências, mecanismos que se criam, barreiras que se erguem à tarefa de criar coisas novas. A velha ordem existe, os interesses-consolidados e afetados reagem. Cria-se o mundo invisível dos obstáculos miúdos e aqui e ali a velha crosta cultural partida lança pedaços que servem de obstáculos ao progresso. Essas bocas são as bocas do pessimismo e seus instrumentos de trabalho as próprias deficiências das épocas de transformação.

Nesse instante se separam os mundos. De um lado o mundo criador da juventude, o nosso mundo criador, e do outro o pessimismo em que se juntam aquilo que os sociólogos chamam as manifestações residuais, fenômeno de circunstância, mas, nem por isso, de gravidade menor.

E aqui, meus caros diplomandos, vai a primeira conclusão e conselho, pela experiência e pela vivência do problema, que é vossa e da vossa profissão e que se chama o vasto campo dos fenômenos psicológicos do desenvolvimento econômico.

O desenvolvimento tem aspectos humanos que não podem ser abandonados e “o povo, por mais atrasado que ele seja” não será nunca um instrumento passivo dos projetos econômicos. O homem é um componente imponderável e sua participação pode ser o fracasso ou o sucesso de qualquer programa. Ninguém pode desenvolver quem não deseja ser desenvolvido.

E aqui aproveito para citar o Padre Lebret: “Todo planejamento autêntico e democrático exige a conjugação de duas correntes, uma que emerge de baixo para cima, dando para o plano aceitação de calor humano, outra de cima para baixo, conjugando racionalidades do plano.”

Assim, a economia não deve nunca esquecer, ao lidar com fórmulas e números, teoremas e equações que tudo isso se destina ao homem, que está no fundo e na flor de qualquer projeto. Dessa visão profissional de que nenhum plano global pode ser imposto, mas ao contrário ele só é viável se tiver o assentimento do povo, resulta uma ilação bem maior. A de que o planejamento, assim concebido, é um instrumento democrático e fora daí pode ser uma arma perigosa de alienação que pode atingir desde a liberdade individual até as riquezas e independências nacionais.

Teilhard de Chardin, em O Fenômeno Humano, afirma: “Para pensar, é preciso comer. Nesta fórmula brutal se exprime toda uma economia que constitui a tirania ou, pelo contrário, a potência espiritual da matéria. Ora é o pão que é preciso, ora o vinho, ora a infusão de um elemento químico ou de um hormônio, a excitação de uma cor, ora a magia de som que, atravessando os nossos ouvidos como uma vibração, emergirá do nosso cérebro sob a forma de uma inspiração”.

E repete: “Para pensar, é preciso comer.”

Meus caros diplomandos de 1968. A vossa profissão destinada ao bem-estar do homem, ao aproveitamento racional e planejado dos seus recursos se destina, também, a atingir o desenvolvimento cultural, as altas formas de vida, os melhores dias e um grande futuro .

“Para pensar, é preciso comer.” Como o Nordeste poderia pensar, mergulhado na pobreza, abandonado, miserável, nos braços do paternalismo da política das secas na inversão de valores, na escravidão de seus homens?

Para comer é preciso criar riquezas, aumentar o nível de vida. Com os nossos próprios braços o fazemos, mas é necessário que o Brasil todo não esqueça que ele tem responsabilidade no nosso destino. A riqueza do país não pode nunca ser feita à custa do nosso abandono nem da reversão de conquistas que são nossas e que não abdicaremos, e nas quais podemos incluir a estrutura da Sudene com o seu mecanismo de incentivos fiscais.

O problema do Nordeste é problema nacional. Não nos cansemos de repetir isso porque é inconfessável a existência, hoje, de uma sistemática campanha, infelizmente aceita em setores os mais responsáveis da administração pública e de empresa privada, que estamos atendidos e passamos a ameaçar a economia do Centro-Sul, com a competição de nossas fábricas. Posso trazer o exemplo vivo, na própria carne, a Usina de Boa Esperança, com seus cronogramas atrasados, sem recursos, porque o Maranhão e o Piauí, a metade da renda per capita do Nordeste e a do Nordeste um terço da renda nacional, não é mais prioridade, nem causa sensibilidade, embora a nossa vida média seja de apenas 29 anos.

O Nordeste precisa pensar e para isso é necessário romper o ciclo da pobreza. O fundamento desta arrancada está construído pela nova mentalidade que existe na região, com a certeza de que temos um destino a cumprir neste grande País.

Desejo agradecer aos diplomandos dos Cursos de Economia e Sociologia esta escolha do meu nome para paraninfo. Sou grato às turmas em seu conjunto e a cada um, individualmente, pelo gesto, na certeza de que estamos juntos, no desejo e na ação de um novo Nordeste, integrado, pelas estradas, pela telecomunicação, pelas universidades, pela energia, pelos problemas comuns e pelas esperanças construídas.

A Paraíba que me recebe em seu solo, sob o seu céu e nesta noite, rendo a minha homenagem. Pelas suas tradições de heroísmo, pela sua inteligência, pelo seu exemplo e pela força dos homens, homens que puderam com seus braços construir este orgulho da Região, esta euforia de progresso, este milagre do que pode o Nordeste fazer, e que se chama CAMPINA GRANDE.

 

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