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Castelo: Escravo da Pátria e da Nação

Aqui está, Senhor Presidente, o Maranhão para render a Vossa Excelência a homenagem de sua solidariedade e de sua exaltação. Intérprete de um sentimento que é do Governo, mas bem maior do que ele, a unidade da palavra do Governador com a emoção e o sentimento de nosso Povo.

Hoje, vivem este instante centenas de milhares de maranhenses espalhados desde as cabeceiras do Parnaíba – na Chapada das Mangabeiras, passando pelas Serras do Penitente, do Gado Bravo, das Meninas e da Chita, caminhando pelo Piracambu até o morro do Imbaúba, já nas matas perdidas da Amazônia (de um lado) e do outro, o mesmo Parnaíba descendo e juntando Piauí e Maranhão, nas corredeiras, e nos afluentes, definindo nossos recortes, até os morrões das brancas areias de Canárias; entre um lado do mapa e o outro, o Oceano Atlântico com seus lençóis, na costa retalhada; o Maranhão geográfico e humano, cheio de tradições, por seus homens e suas mulheres, recebe Vossa Excelência, Presidente Castelo Branco, com a consciência nítida de que a sua figura de brasileiro e de estadista significa, como credor da Nação, no presente e para o futuro.

Esta é uma terra de sinos, Maracatins dos Maranhões, gente criada e bem nascida na água que haveria de surgir, descrita pelo Profeta Isaías, nas Sagradas Escrituras, bem antes que os franceses a descobrissem sob a invocação do Rei e Santo Luís, e com as armas e brasões da Rainha, fundassem a cidade que hoje se chama São Luis do Maranhão. Vibramos e sabemos ter alegrias, como apaixonadamente construímos e reconstruímos, nas pequenas e grandes coisas, motivos e lendas, amores e paixões, que no final são o jeito e o feitio do nosso viver.

Dever a cumprir

Sabemos cumprir com o nosso dever. E nosso dever, hoje, aqui, agora, é proclamar ao Brasil a nossa admiração, o nosso respeito e a nossa gratidão a Vossa Excelência: pelos motivos da Nação inteira e pelos motivos que são apenas nossos.

Coube a Vossa Excelência, Senhor Presidente, um quinhão difícil, reservado pela História do País. Com decisão Vossa Excelência teve de conciliar a necessidade de ser firme, sem ser violento ou injusto. A crise social, econômica e administrativa exigiu a restauração urgente de padrões altos de governo, urgindo, mesmo com deficiência de recursos, deter o caos inflacionário, arrostando os perigos e as resistências das medidas de sacrifício, sem prejudicar o desenvolvimento.

Vossa Excelência partiu para as reformas e as implantou: Lei Orgânica dos Partidos Políticos, reforma agrária, reforma fiscal, saneamento das finanças, lei contra o abuso de poder econômico, emendas constitucionais sobre desapropriação por utilidade pública, taxa de melhoria, elegibilidade dos militares, reforma tributária, e, no terreno político, Vossa Excelência baniu os radicalismos, devolveu a paz e, hoje, podemos ter um País onde existem divergências, mas não um País dividido em duas bandas: uns destinados à salvação e outros à perdição.

Nós, aqui no Maranhão, não fugimos ao nosso dever para com o Governo de Vossa Excelência e corremos na eleição os percalços da solidariedade, nas praças e nas ruas, e agora, que somos Governo, os renovamos sem estimar os riscos ou a cota de sacrifício. O Povo maranhense compreende que o progresso é fruto do trabalho, que o milagre de riqueza não se constrói num clarão, mas demanda perseverança, sacrifícios e determinação, é obra de vidas e gerações.

Vem Vossa Excelência de Boa Esperança: símbolo e mística. “O velho Monge de Barbas Brancas” – como o chamavam os poetas cantores do Parnaíba, com suas águas domadas pela técnica, é promessa de alimentos, de salvação, de trabalho, de progresso, de grandeza e de futuro.

Foi o Presidente Castelo Branco que, rompendo e resistindo a barreiras, com o lastro de sua vida e dos seus antepassados nestas regiões perdidas das Chapadas do Corisco, Maranhão e Grão-Pará, tornou Boa Esperança uma esperança irreversível. Durante todo o seu Governo, 22 horas por dia, sem interrupções, trabalhadores que vêm da ilha de Balsas e dos subúrbios de Guadalupe convivem com as máquinas e constroem a grande represa. Tudo isso sem alardes, ao feitio de Vossa Excelência, sem promoções, mas, com sua constante vigilância e seu cotidiano interesse.

O sonho das torres de transmissão é hoje quase realidade: rompendo paragens inóspitas dos vales do Itapicuru e do Mearim, atravessando puídas e babaçuaís, no antigo caminho dos retirantes, em busca das cidades, plantando riquezas, alimentando bocas famintas, olhos com horizontes: caboclos que não podiam ver neste século senão a mata, graças à decisão do governo de Vossa Excelência, poderão amanhã olhar nos filamentos, nos isoladores e transformadores, promessa de indústrias, promessa de trabalho, promessa de vida.

Mas, não ficou somente aí a marcante presença de Vossa Excelência para o nordeste ocidental, Maranhão e Piauí. A nenhum Presidente devemos tanto. A única grande obra pública aqui feita no passado foi a estrada de ferro São Luís-Teresina, quando o Presidente Afonso Pena a desejou construir, depois de subir o rio até Caxias, em lancha, ao tempo de Urbano Santos e Benedito Leite. Depois dele, há quase meio século, existia o vácuo, para não dizer o caos. O Maranhão é o único estado brasileiro que apresenta sintomas de decadência. A nossa renda per capita, hoje, em termos reais é inferior à de 1959, e a nossa indústria, que representava 12% do produto bruto, hoje não chega a 6%.

Mas, o tempo tem desígnios que jamais podemos desvendar. Estes anos de Governo Castelo Branco reacenderam em todos nós luzeiros apagados. Boa Esperança só, justificaria falar assim. Mas, os desertos de areias de Barreirinhas, Araioses e Primeira Cruz, passaram a ser não só o encantamento das praias assombradas dos pescadores perdidos, ou desertos de dunas a caminhar na lei dos ventos, de praia a praia: são também, hoje, a bacia mais promissora da Petrobrás. O poço de São João arrancou o petróleo guardado há milênios no nosso subsolo, para trazê-lo fora como chama de progresso. No Estado do Maranhão, onde o verde não acaba nunca, o único lugar em que não existiam árvores eram aquelas praias: o governo de Vossa Excelência plantou as árvores metálicas das torres de petróleo.

E não só no setor material, onde poderíamos citar o Porto do Itaqui, com a concorrência e os recursos colocados pelo seu Governo; mas também apoio nos setores de saúde, de educação, de minas e energia, de saneamento e obras várias. Há três dias, Vossa Excelência assinava a mensagem da Universidade Federal do Maranhão, sonho da nossa juventude e de várias gerações, miragem de todos nós e porta capaz de restaurar a tradição deste Estado que teve a cultura como um dos seus deuses a erigir estátuas, através dos seus poetas, cientistas, escritores e artistas.

Democracia é Eleição pura

Quis Deus que me coubesse a alta tarefa da responsabilidade de governar o Maranhão, quando da visita de Vossa Excelência, para significar que o Brasil vê esta Terra com olhos de confiança; quis Deus que o povo maranhense me permitisse estar à frente do anseio coletivo do progresso, para saudá-lo como merece, quer pela missão de que a História o incumbiu, quer pela participação decisiva que há de marcar, para os maranhenses, seu nome na História, na efetivação da Democracia através da purificação do processo eleitoral, quer pela realização de um dos mais decisivos suportes básicos do desenvolvimento desta região.

Temos recebido, Senhor Presidente, do seu Governo, solidariedade e apoio, que significam a aprovação de uma filosofia brasileira e atual, cristã e humana: que abomina tanto a demagogia como a inércia, que visa à preservação dos altos valores herdados de uma civilização democrática, que não vê no povo o instrumento das ambições, mas a coletividade de seres humanos a redimir da miséria, da fome, do analfabetismo, a integrar em padrões de existência dignos, para que o progresso não signifique um privilégio e o privilégio seja ser cidadão desta Pátria.

Temos metas definidas em nosso dever de governar: não as de aproveitamento do Poder, como um usufruto pessoal ou de grupos palacianos, das transigências e facilidades, dos beneplácitos e das regalias, do enriquecimento envilecido à custa do sofrimento do povo, mas metas de honra, da austeridade, da dignidade e, também, da competência e do devotamento à causa pública. E nossa decisão de cumprir estes objetivos é tanto mais firme quanto é agudo o subdesenvolvimento, o atraso deste Estado, a despeito da grandeza de seu povo e da riqueza potencial da Terra.

Já se disse que a crise da Democracia, em nosso tempo, não é uma crise de valores, mas da realização imperfeita desses valores. É na medida em que os governos deixam de realizar os seus objetivos e os objetivos da coletividade, que as questões do desenvolvimento econômico e da justiça social parecem entrar em conflito com o regime democrático. Mas a Democracia está longe de ser uma atitude ultrapassada, uma impostação teórica. A Democracia é a colocação desses valores na agenda de todos os dias, e ela precisa ser mais do que um regime, um estado de espírito permanente e firme. Ela é o caminho, porque o fim é a realização e dignidade da pessoa humana, criatura de Deus.

É em termos de eficiência e não de retórica que um regime deve ser julgado, aprovado ou condenado. E o regime democrático, no Maranhão, não pode ser julgado pelos que o traíram pelos que o amofinaram nos conluios escusos, para negar ao Povo o que o Povo espera do regime: desenvolvimento econômico com justiça social.

A nossa tarefa, portanto, é a de instaurar no Maranhão a Democracia das oportunidades, do respeito à pessoa humana, da honestidade, do trabalho, da vigilância, do amor à verdade, das soluções viáveis e não das promessas impossíveis.

Tarefa facilitada pelo exemplo de Vossa Excelência, que temos procurado seguir na dedicação à causa pública, sem vacilações nem recuos.

Senhor Presidente Castelo Branco: devo prestar, embora sumàriamente, contas do que me foi entregue pela confiança. Temos hoje um Maranhão pacificado, de trabalho, cujos temas principais são os temas do progresso. Bastam os índices da nossa decadência, que constituem um processo de longa data que nos cabe deter, para, depois, iniciar a recuperação. Para isso, duas coisas são importantes: uma, a ajuda de todos os maranhenses, que não me têm faltado, sabedores de que a tarefa do governo é difícil e ela começa em cada cidadão; depois, a ajuda do Governo de Vossa Excelência, em todos os setores, que também tem sido entusiástica e animadora, constituindo orgulho e incentivo.

Presidente, é hoje um dia magno em nosso Estado. Em todos os séculos de nossa vida passaram pelo Maranhão os grandes homens de nossa Pátria e do seu tempo. O primeiro donatário da Capitania era o historiador João de Barros; aqui, o Padre Vieira pregou em nossas igrejas; aqui, viveram gerações e gerações de grandes escritores. O próprio patrono do Exército Brasileiro, a que Vossa Excelência dignifica com a sua vida de soldado, retirou de um pedaço do chão do Maranhão, a cidade de Caxias, o titulo que guardará para a eternidade.

E hoje, Presidente temos nós, maranhenses, a certeza de que estamos recebendo no Maranhão, e a ele permanecerá ligado por tudo o que lhe devemos, um dos vultos da história brasileira contemporânea, que é Vossa Excelência, exemplo de retilíneo caráter, espírito público e escravo da Pátria e da Nação.

 

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