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A Revolução e o Meio-Norte

Ninguém discute a oportunidade e a necessidade da Revolução de Março de 1964 para o Brasil. Mas, se para o país como um todo ela era urgente, para o Norte era inadiável e inapelável. Era terrível a passividade desta sofrida região ante o seu antigo estado de calamidade; mais terríveis ainda eram a indiferença e o descaso do País em relação ao que aqui acontecia: os mais baixos processos políticos e administrativos, os mais altos índices de pobreza e miséria, contrastando com a potencialidade dos recursos naturais e a riqueza intocada dos formidáveis recursos humanos. Era um mundo de surdos desesperados, na vasta paisagem abandonada.

O Meio-Norte é uma região mediterrânea. As fronteiras áridas do Nordeste vêm morrer à beira do Parnaíba, onde o Piauí termina e começam os cerrados verdes e os vales úmidos, e as fraldas da floresta amazônica vêm surgindo, acamadas em rios e morrotes, desde o Mearim, o Pindaré, o Corda e o Grajaú, ainda sem a agressividade da impenetrável mata equatorial. No Brasil dos seus primórdios, era esta uma das regiões mais prósperas, com as fazendas gerais de Oeiras, até a Companhia de Comércio do Maranhão e Grão-Pará, ao tempo de Pombal, levando couros, madeira e açúcar, e trazendo vinho, azeite e azulejos.

Ao fim do século XIX e durante o século XX, o eixo do progresso mudou, e o Meio-Norte como que parou, passando a sofrer o processo involutivo de desintegração da sua economia. Lenta, mas inelutavelmente, apareceram os sinais de decadência no imenso espaço vazio e esquecido, e sua gente continuou a lutar pela sobrevivência, resistindo ao tempo e às doenças, distanciada, cada vez mais, do impulso de crescimento das outras regiões do país. O estabelecimento fundado na Colônia foi-se fechando em sua pobreza.

Sobre esse estado de coisas, e para servi-lo, foi-se criando uma crosta cultural do atraso, que mantinha em perfeito equilíbrio o sistema econômico e político, baseado no fisco, no policialismo, na especulação da indústria extrativa e numa pequena casta que empolgava o poder. Era o império do primarismo, da exploração da miséria, dos privilégios e dos negócios inconfessáveis.

Impossível romper esse círculo vicioso, sem que outro poder mais alto se alevantasse. O quadro formado ao longo dos anos era o da mocidade desestimulada pelo sistema do pistolão, dos homens de bem afastados pelo terrorismo das retaliações de toda ordem, e os incapazes no seu reino e glória.

Por incrível que pareça, esse sistema feudal chegou até 1964. Por isso, a Revolução, nestas plagas, era inadiável.

Mas, não só inadiável. Ela devia ter, nesta região, absoluta eficácia, e os resultados obtidos foram os mais alentadores. No Meio-Norte a Revolução teve, em toda a sua profundidade, o significado de uma transformação. Em nenhuma outra área pôde ela atuar tão rapidamente, e caracterizar-se. Pode-se avaliá-la, aqui, na sua grande obra, como se estivéssemos num laboratório, vendo num tubo de ensaios as mutações, os avanços, a criação de novas formas.

Vamos aos fatos. A última grande obra nesta área datava do tempo do Presidente Afonso Pena, nos primeiros anos deste século – a estrada de ferro de São Luís a Teresina. Inspirada na vocação de estadista de Benedito Leite, essa estrada foi, por muito tempo, o eixo dinâmico da economia da região. Depois dela, porém, fez-se o vazio. As obras de Santa Engrácia estavam todas à espera dos homens. Sem portos, sem estradas, sem energia, sem escolas, sem hospitais e sem administração, ninguém pensava em riquezas nem acreditava em progresso. Era o desencanto.

A hora da Revolução, por estas bandas, soou para mudar. O país deixou de ser impassível à sorte do Meio-Norte: criou-se a consciência de que os problemas da região eram também problemas nacionais. E a transformação foi total. O processo político foi saneado. A vontade do povo, pela primeira vez, passou a ser expressa pelo voto limpo, respeitado e garantido. A seleção pelo mérito, a racionalização da administração pública, a implantação do planejamento e o extermínio da corrupção determinaram uma visão nova de nossas potencialidades, a fazer renascer esperanças há muito perdidas.

Basta citar o exemplo do Maranhão. Até 1964, a energia neste Estado se limitava a 7.500 kw. (metade do que consome o Edifício Avenida Central no Rio de Janeiro); não havia nenhum quilômetro de estrada asfaltada; só existia um estabelecimento oficial de ensino médio e o sistema de ensino primário atendia apenas a 58% das crianças em idade escolar. Para 98% da população desservida de abastecimento de água e de esgotos, o quadro de doenças era constrangedor: a esquistossomose e a malária atingiam a índices superiores a 50%, e o número de verminóticos situava-se na faixa de 86% da população. Havia um médico para cada 120 mil habitantes e um leito de hospital para cada 5 mil; no interior do Estado existia um único posto médico. Não havia programa habitacional, nem de telecomunicações, nem de saneamento. A indústria era um sonho extinto: apenas uma fábrica de tecidos funcionava, como última lembrança de um parque fabril dos mais promissores do país no fim do século passado. O orçamento do Estado para 1966 era de dezoito milhões de cruzeiros novos, 98% dos quais absorvidos pelo pessoal.

Esses dados denunciam um quadro que era um exemplo de atraso, de decadência, de sucumbimento de uma região que, antes da Revolução, estava em face de todo o Brasil.

Hoje, porém, o que se vê é a renovação. Os hospitais, agora, são treze e há trinta e dois postos de saúde espalhados no interior do Estado. O índice de incidência da malária baixou para menos de 8% e o de esquistossomose a menos de 20%. Instalaram-se mais de cinqüenta unidades de saneamento. O investimento estadual em educação ascendeu a 500%, propiciando matrículas para mais de quatrocentas mil crianças na rede de ensino primário e mais de quarenta mil jovens no ensino médio. Criaram-se quatro escolas superiores estaduais. A energia instalada aumentou em 86% e os cento e cinqüenta e seis quilômetros de rodovias estenderam-se para mais de mil quilômetros, quinhentos dos quais asfaltados. O orçamento do Estado subiu para duzentos e setenta milhões, com apenas 19% de despesa de pessoal. O Maranhão tem hoje uma rede de telecomunicações que abrange mais de noventa cidades e a sua indústria renasce, apoiada nas agências financeiras regionais.

Antes de 1964, o Maranhão não tinha sequer condições de ser ajudado: não tinha infra-estrutura e faltava-lhe administração. Hoje, é o Estado que mais cresce em todo o Nordeste. Os dados do seu desenvolvimento dizem, por si sós, muito mais que as palavras. E revelam sobre tudo um fato importante: a mudança de mentalidade. Todos sabem que o progresso é fruto do trabalho, que ele não se faz pela demagogia, mas começa dentro de cada um, com responsabilidade e com mérito. Essa compreensão é o grande suporte para o salto que demos nestes seis anos de Revolução.

Aqui, o porto do ltaqui está pronto, a rodovia São Luís-Teresina asfaltada, a ponte do estreito dos Mosquitos (500 metros), ligando a ilha ao continente, e a ponte de São Francisco (900 metros), libertando a velha São Luís, também concluídas; a ponte rodoviária sobre o Rio Parnaíba (600 metros), em fase de construção acelerada; o ramal ferroviário ligando a estrada São Luís-Teresina ao porto de Itaqui avançando em largos passos; o distrito industrial junto ao porto, já planejado e em fase de implantação. Mais ainda: está feita a ligação ferroviária do Maranhão e do Piauí à rede de viação do Nordeste; a estrada de rodagem a caminho do Sul, ligando Teresina a Petrolina, e a estrada Pará-Maranhão, estão sendo atacadas. O Meio-Norte tem hoje a hidrelétrica de Boa Esperança, usina de sua redenção; tem a Universidade do Maranhão e a Universidade do Piauí; tem o aeroporto internacional de São Luis; tem o sistema de microondas implantado; conta com mais de seis mil casas construídas pelo programa habitacional; dispõe de crédito para a indústria e o comércio elevado em mais de cinqüenta vezes; os projetos da Sudene cresceram 394% e da Sudam 5.380%; e o fluxo de recursos federais, através de fundos e convênios, ascende ao equivalente à arrecadação estadual. Tudo isso é feito pela revolução, é obra dos seus governos, é decisão de sua política, e é o que de mais palpável representa o sonho de libertação desta região, de sua fuga ao atraso e à descrença sem remissão em que todos nós estávamos jogados.

A administração pública passou a ser solidária: governos federais, estadual e municipal num mesmo barco, de mãos dadas, possibilitando a demarragem para o progresso. A palavra política deixou de ser um palavrão para ser um pesado fardo de responsabilidades coletivas.

Por tudo isso a Revolução nesta área é popular. Ela abriu caminhos novos e seus chefes são relembrados com gratidão e respeito: Castelo Branco, Costa e Silva, e uma grande confiança na continuidade desse esforço, sem medidas, pelo Presidente Médici. A Revolução transformou energicamente a estrutura econômica e política desta região: tem ela, aqui, a sua mais alta vitória, que é a de ter dado sentido não apenas contemplativo, mas verdadeiro e pragmático, aos problemas da integração de nossas imensas potencialidades à realidade brasileira.

 

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