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A Juventude e o Não-Conformismo com Contornos Supostos

Hoje, como nunca, a Juventude, e principalmente a Juventude estudantil, é, em todos os quadrantes de nosso vasto Mundo, presença nas manchetes, assunto de controvérsia, preocupação da psicologia e da segurança e até, muitas vezes, tormento do mundo político. Quase todas as injustiças têm sido ditas contra a Juventude e até mesmo muitas têm sido cometidas. Talvez porque participei da vida estudantil com entusiasmo, porque ingressei muito jovem nos quadros da política, porque me vi eleito Governador jovem ainda, porque me recuso a resignar do espírito da Juventude sempre evitei os julgamentos apressados, as sentenças rápidas e rigorosas, sempre considerei que o melhor caminho é o de tentar compreender, de procurar divisar, para além dos nevoeiros transitórios perturbadores, os grandes motivos que, por vezes, convertem o natural vigor na manifestação das convicções em compulsiva e ruidosa intranqüilidade.

Grande vitória da ciência, o nosso século poupou centenas de milhões de vidas jovens que antes pareciam condenadas pelas doenças da primeira idade. A população jovem do mundo aumentou, assim, drasticamente, e hoje o nosso universo é povoado, em mais de cinqüenta por cento, por jovens de menos de trinta anos. No Brasil o quadro é ainda de contornos mais claros: metade de nossa população mal ultrapassa os 20 anos. E essa imensa massa de Juventude floresce num intranqüilo, controverso, árduo, impreciso mundo cindido por ideologias fascinantes e se defronta, de logo, com uma paisagem desoladora de injustiça social, irracionalismo e paixões políticas violentas.

Nem seria essa juventude jovem, nem seria ela humana, se, tocada pelo contraste chocante de tal realidade, chamada a enfrentar tais desafios agudos e perturbadores, se comportasse com a sisuda provectude, a olímpica serenidade que muitas vezes nem o passar dos longos anos oferece. Com sua generosidade vê-se ela compelida a não aceitar aqueles contornos injustos, com seu entusiasmo se vê chamada ao não-conformismo; com sua pureza de atitudes, age muitas vezes na inteira doação aos problemas que lhe ferem a sensibilidade e como, porque assim lho exige a natureza, não sabe fazê-lo com a serenidade que seria sua própria negação, explode, sim, por vezes, e se conturba. E perturba.

Temos visto, freqüentemente, a Juventude tensa e hostil como uma febre; temos visto também que se age, por vezes, ante essa febre alarmante, com a inocência de quem confunde a febre com a doença. Disso não resultará a saúde!

Revolução contra o subdesenvolvimento

Tenho a oferecer minha experiência pessoal de Governo. Fui eleito – e disso posso orgulhar-me pela manifestação de uma autêntica revolução pelo voto do povo maranhense contra o caciquismo, o atraso político, a violência policial, a corrupção, a fraude. Assumimos o Governo com o firme propósito de mobilizar, de logo, todos os universitários para nossa grande tarefa no Maranhão: Vencer o Subdesenvolvimento.

Batalhamos pela criação da nossa Universidade, que é hoje uma realidade. Integramos os acadêmicos, desde a vida universitária, em nossa tarefa de diligenciar progresso 24 horas por dia. E hoje, adeptos ou adversários políticos, lá estão dezenas e dezenas deles, recrutados pelo Governo do Maranhão, prestando serviços a sua Terra. Acadêmicos de medicina, economia, serviço social, enfermagem, direito, filosofia colaboram, ativamente, com o Governo na construção do Novo Maranhão.

Cada época, cada Nação tem seus grandes objetivos. Essa a lição da História. Em nossa época, e nesta Nação o grande objetivo outro não pode ser que o de desenvolvimento com Justiça Social. Teremos êxito ou malograremos como Nação na medida em que lograrmos esse objetivo; seremos dignos de nós próprios na medida em que totalmente nos empenhemos por tornar a Justiça Social a grande meta do Desenvolvimento. O que entendemos por desenvolvimento? : “Trata-se de construir um mundo, onde todo homem, sem exceção de raça, religião ou nacionalidade, possa viver uma vida plenamente humana, emancipado das servidões que lhe vêm por parte dos homens e de uma natureza vã, e onde o pobre Lázaro possa sentar-se à mesma mesa do rico.” A definição é da voz mais autorizada para todos nós: Sua Santidade o Papa Paulo VI, e define, sem dúvida, a grande meta da humanidade de nossa época.

Estou absolutamente certo de que tal objetivo nos fará unânimes: ao Governador do Maranhão e aos jovens estudantes paulistas com quem hoje dialogamos. Porque essa é a medida do êxito de todos nós, o grande desafio que todos deveremos enfrentar e que não resultará em nada se enfrentarmos divididos porque só a generosa soma de todos os esforços diante da magnitude dos problemas que enfrentamos tornará êxito viável.

A despeito de tudo quanto possa significar, no presente, a negação de nossos sonhos e ideais, vivemos, hoje, em nosso País um grande momento. E se isto é verdade para todos os brasileiros, mais verdade é ainda para a Juventude diante da qual e à mercê da qual a grande Pátria que o Brasil é em potencial se oferece como projeto a edificar.

Viveis vós, caros estudantes paulistas, nesta magnífica Nação de progresso que é o São Paulo de hoje, desenvolvido, com níveis europeus de renda e à véspera de uma autêntica democracia de oportunidades. Freqüentais magníficos centros de ensino onde vos armais da técnica imprescindível às grandes tarefas que vos serão delegadas já amanhã. Tendes, por certo, o mesmo espírito forte e confiante dos antigos pioneiros e Bandeirantes que edificaram a paulicéia e eu aqui estou para despertar o Vosso entusiasmo jovem para uma nova fronteira magnífica e desafiadora – o Grande Norte, onde a Nação começou a plasmar-se no povoamento de portuguêses, africanos, holandeses e franceses, o Grande Norte da antiga riqueza dos engenhos e algodoais; esse continente que vai dos sertões da Bahia aos confins do Acre, do Amapá, do Rio Branco e Rondônia, Nordeste e Amazônia que constituem quase dois terços da superfície nacional, e ainda grandes vazios de povoamento ou de progresso, onde mais de 30 milhões de brasileiros vivem e subvivem com renda por habitante que não ultrapassa um terço da média nacional, cuja média de vida é de apenas 30 anos e onde as taxas de mortalidade infantil atingem até 500 por 1000. O Grande Norte, que, a despeito dessa paisagem desoladora, despertou para o desenvolvimento, tem no desenvolvimento sua obsessão e espera que todos os brasi1eiros se inscrevam na grande bandeira da Integração Nacional.

Um Maranhão que se refaz

Venho do Velho Maranhão que foi província maior pela prosperidade econômica – de que ainda falam suas monumentais cidades e ruínas – e pelo esplendor da cultura – que é dos mais preciosos patrimônios nacionais hoje reduzido a uma renda per capita que não alcança USS 100 dólares/ano, com mais da metade de suas crianças em idade escolar fora das escolas, com taxa de mortalidade infantil de 212/1000, o Maranhão do extrativismo, da pecuária extensiva, da agricultura predatória, da indústria significando apenas 8% do produto bruto mas onde a palavra desenvolvimento já tem hoje também magnífica ressonância. Venho do Maranhão mobilizado pela consciência do subdesenvolvimento e a firme decisão de superar essa condição; do Maranhão incorporado, calorosamente, à grande meta da Integração Nacional. Do Maranhão que constrói estradas; porto hidrelétrica onde, o petróleo aflorou como simbologia de que chegou também para nós a hora de nos incorporarmos aos benefícios do desenvolvimento.

Hoje a Integração Nacional não é apenas um objetivo regional – a Nação, por seu Governo, a todos nos mobiliza para esse objetivo, essa meta de soberania e de prosperidade e nos aponta o desafio da Nova Fronteira como os pioneiros e bandeirantes dos séculos XVI e XVII que rasgaram os grandes caminhos do desconhecido e hostil para plantar nos horizontes da vastidão um País Prodigioso.

Transformar esta Nação continental num continente de prosperidade e justiça social, erguê-la aos mais altos padrões do desenvolvimento humano –eis a que fomos chamados, o que justifica para nós, nesta segunda metade do século XX, o privilégio de sermos brasileiros, e se isto é verdade para todos, mais verdadeiro terá de ser para a Juventude que há de ter na construção do futuro as tarefas mais vastas e fundamentais.

O que somos, como Povo e Pais, o devemos aos que nos antecederam com devotamento e heroísmo, com inteligência e coragem; devemo-lo também aos que participam hoje das responsabilidades e dos sacrifícios; mas o que seremos – e o panorama de amanhã é grandioso e vasto – dependerá sobretudo de vós, de vossa capacidade técnica e de vossa sensibilidade humana, de vossa coragem e de vosso descortino, de vosso devotamento e de vossa audácia, e sobretudo da capacidade que tiverdes de compreender a grandeza das conquistas que sereis chamados,a realizar e da medida, de grandeza com que as realizardes.

O Brasil a ser, sois vós e será vosso. Integrado e desenvolvido, humano e justo, soberano e pacífico, imensa Pátria de prosperidade e de oportunidades que deveis começar a construir em vós desde agora.

Sei que a construiremos.

Acredito na responsabilidade de nossos homens públicos para além de nossas controvérsias, e em seu patriotismo, e em sua fidelidade e em nossas ricas tradições de humanismo, e que não lhes faltará nem o zelo, nem o entendimento, nem a serenidade, nem a decisão para os grandes cometimentos.

Acredito no Povo Brasileiro que, rompendo e dominando vicissitudes e densos obstáculos, com uma capacidade de sacrifício e compreensão raras, forjou nosso, destino e nossa dimensão de País que pode desafiar o futuro.

Acredito na Juventude: na sua generosidade e no seu dinamismo, no seu patriotismo e no seu altruísmo, na sua capacidade de devotamento às causas por que se apaixona, no seu natural amor à justiça, na sua capacidade de converter em atos os ideais.

Acredito, portanto, no futuro desta Nação, construído por todos os brasileiros; um futuro de fidelidade à nossa vocação de humanismo que a história testemunha e da fé em nossa capacidade de edificar os, sonhos. Esse Brasil que é mais vosso que nosso, posto que seja nosso, porque começa num ato de vontade que é de nós todos, valerá todos os sacrifícios e pagara todas as esperanças.

Eu vos felicito pela dimensão da tarefa que a história vos destinou, ó jovens bandeirantes de um futuro de grandeza.

E aos alunos do Mackenzie que vivem este momento alto da classe universitária, o nosso agradecimento e louvor.

Eles desejam maior o Brasil, com o seu idealismo. Eles nada têm e têm tudo. A decisão dos estímulos, dos projetos, das viabilidades, não é deles. Mas, deles é a decisão e o desejo de soberania, de independência, de unidade, de afirmação da Pátria.

Essa integração nacional, sonho dos estudantes de São Paulo, começa a receber aqui a sementeira de seu advento.

E se tudo for contra, se nada vier em ajuda, se os rios correrem cortando os caminhos é possível ainda, para os senhores, reunir e tentar resistir e sonhar. Essa é a poderosa força da Juventude: o domínio do tempo, que tem sempre mãos novas para receber e idéias novas para dar.

Esta inquieta, trepidante e idealista juventude da minha pátria, que tem em São Paulo parcela tão significativa, é bem o orgulho de todos nós pelo que representa e pelo que é.

 

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