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Violência que não passa

Começo pedindo desculpas por mais uma vez falar de violência.

É o sexto artigo que escrevo este ano falando disso, o terceiro tratando do problema em São Luís. Eu preferia estar tratando de outras coisas, louvando a cidade como fiz tantas vezes — e isso não cansa nunca, esse amor declarado é compartilhado por todos. Mas a brutalidade do quotidiano que choca a todos não pode ser aceita sem protesto. E eu protesto.

Este mês foi inaugurado com dois assassinatos em São Luís e o mistério do desaparecimento de uma menina de dez anos no Maiobão, nesta sexta-feira encontrada enterrada no quintal de sua casa. Acaba a frágil esperança de que estivesse viva, acaba até mesmo o terror do rapto e da violência inominável, para ficar o vazio do fim de uma vida tão curta.

O mês passado a região metropolitana de São Luís teve 85 mortes violentas, 67 delas nessa confusão estatística, feita pelo Governo, que separa homicídio de latrocínio e cadáver encontrado de crime, para enganar o número de mortos.

Fala-se na Rocinha, na Maré, favelas do Rio que escandalizam o Brasil. Pois aqui se mata mais.

No ano de 2015 São Luís teve 794 mortes pela violência homicida. Uma taxa de 73,9 mortes por 100 mil habitantes — sempre me choca essa estatística que fraciona a vida em décimos, mas é mais duro o choque do número. No ano passado, a taxa subiu para 90,7 mortos por 100 mil habitantes, mais do triplo da catastrófica taxa brasileira, que faz o Brasil o campeão de mortes em números absolutos.

Exemplo da tragédia. Na Vila do Funil foram presas, em operação espetacular, com mais de 100 policiais civis e até helicóptero, 24 pessoas, acusadas de pertencer a um grupo de marginais. No começo de junho, ela fizera uma intervenção com a prisão de 14 pessoas. Logo no mês seguinte, um líder comunitário, Almir Silva dos Santos, foi assassinado: aos olhos dos representantes da chefia do crime organizado, era culpado de ter pedido uma ponte entre a Vila do Funil e o Tibirizinho. Mais de 50 famílias de moradores foram expulsas da Vila pelos bandidos. O medo é total. À noite ninguém pensa em botar o pé fora de casa, mas isso não basta. O bairro está prisioneiro dos bandidos.

Quando houve as terríveis rebeliões de Pedrinhas, os atuais governantes diziam que o problema era o Governo de Roseana. Se se falava em organizações criminosas, era enganação: diziam não acreditar nelas. Quando eles fossem o poder, tudo estaria resolvido, dentro e fora dos presídios. Não resolveram nada. A violência aumentou em 12%.

O mundo vive um tempo de medo. Há o medo do terror, o medo da guerra, o medo do desconhecido. O Brasil vive um medo especial, pela violência que não respeita a Polícia nem as Forças Armadas. Mas o crime em São Luís está insuportável.

Não se sabe se deve ter mais medo dos bandidos ou da ineficácia do Governo, que só pensa em perseguir os adversários, pintar prédios e placas de vermelho e restaurar o comunismo ladino.

José Sarney

 

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