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Violência, lá e cá

Vemos, nessa época da comunicação em tempo real, o mundo mergulhado na violência e no terror. O retrato da Síria e do Iraque, com suas duas faces: o múltiplo enfrentamento do Estado Islâmico, dos grupos rebeldes, dos curdos e do ditador Assad, de um lado; e as vítimas que jazem nos escombros ou se espalham na busca de paz, encontrando a indiferença ou a hostilidade. As crueldades que cruzam a África, com rastros de fome e intolerância religiosa. O terror oficial do presidente Duterte, das Filipinas. O clássico modo de conquistar da Rússia, que Hélène Carrère d’Encausse, secretária perpétua da Academia Francesa, chamou de “malheur russe”, desgraça russa, hoje com o nome de Putin. E o prenúncio de um mundo mais difícil com as primeiras patéticas semanas de Trump e sua visão do mundo dividido!

O Brasil devia estar noutra esfera. Afinal, temos a cultura da alegria, futebol e carnaval, gol e passo do sambista. E, de repente, com a economia dando sinais de reversão, começa a renascer uma esperança de recuperação, que poderá diminuir o desemprego, com a queda já consistente da inflação.

Mas a violência não cala em nosso País. Temos há muitos anos números de vítimas que nos equiparam a conflitos regionais, e que crescem sistematicamente, já passando dos 55 mil mortos por ano. Já me repeti, mas continuo a repetir, que é um estado de coisas inaceitável, que deve mobilizar os esforços de todos. Algumas estatísticas não se explicam, mas explicam muito o descontrole do sistema de segurança, como a de que menos de 3% dos homicídios chega ao estágio da denúncia, ou a de que para cada presidiário condenado há um mandado de prisão por cumprir.

Há também essa loucura que explode no mundo-cão das rebeliões em presídios, cada um com várias vezes sua capacidade, cada um com mais dramático tratamento a seus detentos, que acabam se tornando capazes de crueldade inimaginável. A situação chegou a um ponto em que se tem que aceitar a loucura da separação dos prisioneiros por “facção” — até com uma muralha de containers levantada entre elas, como no Rio Grande do Norte — na absoluta incapacidade de aplicar a separação por tipo de crime que manda a lei. Trabalho remunerado? Como, onde?, se o espaço é insuficiente para que se deitem e precisam revezar-se para dormir?

E a situação das polícias? Os homicídios praticados por nossos policiais são destaque no mundo inteiro. É claro que há muitos que se comportam com heroísmo, mas os que esquecem os seus deveres os relegam para um segundo plano.

Agora o Espírito Santo, que tinha deixado para trás seu exemplo de má polícia e se destacado pela melhora de sua segurança, inventa uma nova maneira de fazer a greve — isto é, motim, rebelião, pois todos sabem que a greve de policiais é ilegal — sujeitando-se ao doce constrangimento de suas mulheres sentadas nas portas dos quartéis. A covardia de usá-las só é superada pela covardia contra o resto da população, deparada com o medo da violência que inunda suas ruas e atinge todo o estado. Violência que espanta em sua gratuidade.

Deus queira que por trás dela não esteja alguma mão política oculta, no eco do terrorismo que varre o mundo e de que o Brasil estava salvo até hoje. Gomes de Castro dizia que tínhamos um anjo mau que surgia das nuvens, invadia o País e fazia as coisas ferverem.

Só nos resta a oração, dizia João Paulo II; e lamentar as lágrimas e consolar os aflitos, que são muitos.

 

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