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Vinte e oito de julho, apenas feriado

No Maranhão mantemos a tradição de tornar o dia 28 de julho feriado. Se perguntarmos a qualquer pessoa da rua ou aos jovens de nossas escolas o porquê dessa homenagem, acho que ninguém responde corretamente. Eu mesmo tive oportunidade de perguntar a um neto o que era o 28 de julho.

Ele me respondeu: “Meu avô, o senhor não sabe? É feriado.” Eu, perante ele, é que passei por ignorante.

Esta data é de grande significação histórica: é o nosso sete de setembro. O Maranhão nem soube, nem aderiu ao grito do Ipiranga. Os fatos que se desenrolavam no sul (Rio de Janeiro, São Paulo e Minas) se referiam às desavenças entre Brasil e Portugal, entre o príncipe Dom Pedro I e seu pai, Dom João VI.

Quando Dom Pedro optou por “ficar”, instalou José Bonifácio no Governo. Visitando São Paulo, recebeu, vinda da Corte (o Rio de Janeiro), correspondência da Princesa Leopoldina com exigências das Cortes (a Assembleia Constituinte que se realizava em Lisboa) que praticamente fariam o País voltar aos tempos da Colônia. Com seu temperamento impulsivo o príncipe Dom Pedro arrancou as cores de Bragança, sacou da espada e gritou àquele vazio da estrada de Santos “Independência ou Morte”. A notícia foi se espalhando. Logo, na cidade de São Paulo, no teatro, o príncipe ouviu pela primeira vez o grito geral de “Viva Pedro I, Imperador do Brasil”.

No Rio, José Bonifácio encarregou-se, com sua genialidade, de esboçar as estruturas do novo império. O ano era 1822, e apenas duas províncias se recusaram a aderir à independência e preferiram se submeter ao Reino Lusitano. O comando das forças portuguesas contra a independência, no Maranhão e Piauí, era do Brigadeiro Fidié, derrotado, em março de 1823, na Batalha do Jenipapo, em Campo Maior, onde os piauienses mostraram a sua bravura.

Meu avô Assuéro Ferreira, piauiense de Valença, dizia, com muito orgulho, que seu avô lutara contra Fidié e era independentista.

Surge uma figura sinistra, o Almirante Cochrane, escocês, que lutara contra Napoleão e recebera o tratamento de “lobo do mar”, tal a sua habilidade nas artes navais. Expulso da marinha inglesa por fraude na bolsa, refugiou-se na América Latina, tomou parte da independência do Chile e foi contratado depois por Dom Pedro para ajudá-lo a consolidar a independência do Brasil.

Dom Pedro concedeu-lhe o primeiro título de nobreza do Brasil, Marquês do Maranhão, pela sua atuação para que a Capitania aderisse à independência. Ei-lo que surge em nossa terra, em 26 de julho de 1823, e, somente com uma nau e um patacho, aplicou um golpe de corsário fazendo crer que fora da barra havia uma esquadra poderosa, pronta para bombardear a cidade, caso não aderisse a Dom Pedro.

Assim, no dia 28 de julho, no Senado da Câmara (câmara municipal), fez com que todos assinassem essa adesão. Em seguida, saqueou a cidade, foi ao Tesouro, recolheu o dinheiro público que lá existia e deu as costas ao Brasil, rumando para a Inglaterra. Está enterrado na Abadia de Westminster, em Londres.

A lápide tem a seguinte expressão: “Lord Cochrane, Marquês do Maranhão”.

Eu, visitando aquele monumento, passei ao lado do seu túmulo, pisei sobre ele e disse: “Pirata! Saqueou São Luís e agora está dormindo aqui com este título que, no Maranhão, ninguém lhe daria.”

Este é o nosso 28 de julho, que até hoje comemoramos e, como diz meu neto: “Um simples feriado.”

Eu estou ao lado do meu avô, lutando contra o Fidié para que o Brasil se tornasse independente. Para mim, nada de Cochrane, tudo dos bravos maranhenses que lutaram, tornados do Piauí, passando por Caxias, para que fôssemos parte deste fantástico País, orgulho de todos nós: Brasil.

José Sarney

 

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