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A verdade e a mentira

As palavras que estão hoje mais em moda são fake news (notícias falsas) e pós-verdade (verdades também falsas) — no fundo, nada mais são do que uma fórmula atual de mentira.

Em 2003, fui convidado pelas Nações Unidas para participar de um congresso mundial, em Bilbao, norte da Espanha, para discutir a influência da internet na violação dos direitos individuais, o fim da privacidade, invadida pelas redes sociais.

Sustentei que a maior de todas as ameaças e suas consequências era a que pesava sobre a Verdade.

Hoje sobre um mesmo fato existem tantas versões e tantas verdades que ficou difícil saber onde está a verdade. Em geral, ela é escolhida por formadores de opinião pública, sem que eles mesmos saibam onde está o fato verdadeiro.

Marshall Mcluhan, quem primeiro abriu caminho para louvar e denunciar os perigos da sociedade virtual — ainda nos anos 60 —, já advertia para a possibilidade do que ele chamava de “pseudofato”.

É melhor darmos um exemplo do que explicar o que era isso. Se numa cidade existisse abundância de alimentos, mas a televisão mostrasse uma prateleira vazia, dizendo que a falta de alimentos e a fome dominavam numa cidade, esta versão era maior do que a verdade.

Isto me leva a pensar sobre nosso Estado e aquilo que o Padre Vieira fez e que nos dói até hoje: lançar sobre o Maranhão, no famoso sermão dos MM, o M da Mentira, o M da Maranha, e o M de Maldizer. Chegou ao exagero de afirmar que aqui até o Sol mentia.

É o que se tem visto nos últimos anos. Eu tenho sido talvez a vítima maior desses hábitos, pois resolveu-se atribuir o que era bom na nossa atuação para transformar no que era mal. Hoje, todos vivemos sob o império do medo. Medo da (in)segurança pública, das agressões, do ódio, da inveja e da perseguição, sob a égide do poder público.

Quantos desempregados? Quantas famílias em sofrimento?

Por politicagem, sob a invocação do comunismo, transformam-se divergentes e adversários em inimigos, adotando a teoria leninista de que à política, ao contrário do que dizia Clauzewitz,, deviam ser aplicadas as leis da guerra: inimigo é para ser morto, exterminado, sem que se julgue o que é justiça ou injustiça.

Para não me alongar mais, vou invocar a própria História do Maranhão e, em vez de Vieira, o Marquês de Pombal, que recomendou ao seu sobrinho Melo e Póvoas, quando o nomeou governador do Maranhão, o seguinte:

“Engana-se quem entende que o temor com que se faz obedecer é mais conveniente do que a benignidade com que se faz amar. A obediência forçada é violência. Em qualquer resolução que tiver que tomar, adote três coisas: prudência para deliberar, destreza para dispor e perseverança para acabar.”

Como eu durmo tranquilo por nunca ter perseguido ninguém, por ter nascido com a absoluta incapacidade de ter ódio e perdoar os inimigos, sabendo que tudo que se fez aqui em benefício do nosso povo tem a minha mão, e não a da “oligarquia discriminadora”, que foi — e é — uma fake news (notícia falsa) que alimenta tantos pobres de espírito.

É a velha mentira de ontem e de hoje.

José Sarney

 

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