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Vamos botar o bloco na rua

Ao longo da vida tenho escrito tanto sobre o Carnaval que já não sei se devo continuar no tema ou escolher outro, um que fale dos males que hoje afligem o nosso povo, sobretudo a violência, a insegurança e o cultivo do ódio, do fanatismo e da perseguição que são a moeda que circula hoje no Maranhão.

Disseram-me até que estavam tentando organizar um Bloco dos Perseguidos, mas chegaram a conclusão que eram tantos que não caberiam em um só bloco, mas ocupariam todo o Estado. Os pobres comerciantes, além de terem de enfrentar a crise, têm de enfrentar o aumento dos impostos, que de maneira brutal caiu sobre o empresariado. A pecuária está estrangulada, com a via crucis que tem de enfrentar no caminho de banco em banco, de burocracia em burocracia, com os preços que até hoje estão deprimidos.

O mesmo com os agricultores, grandes e pequenos, tendo que trabalhar somente para pagar impostos, dinheiro que vai para pintar de vermelho escolas, o muro do estádio, hospitais e tudo mais que aceite tinta. O vermelho é a cor revolucionária, fardamento dos funcionários que lidam com o público.

Mas deixemos isso para lá e vamos botar os tamborins para tocar, os tambores de São Luís, que tem um batido de quatrocentos anos, as cabrochas bonitas rodopiando ao ritmo dos cocos africanos, um deles o Tambor de Crioula, e o gingado dos fofões no seu grito de guerra: “Tu me conheces, Carnaval?”

Meu tio Ferdinand, um festeiro de primeira linha, uma vez, quando viu o Bloco da Mesa, todos cantando com uma mesa carregada por foliões, tomou a mesa e colocou na cabeça e inventou uma marchinha:

“Esta mesa não é minha, esta mesa é da vizinha.”

E os donos verdadeiros do Bloco da Mesa o expulsaram, deram-lhe uns bofetões e ele chegou em casa com as marcas. Estórias de Carnaval.

Mas o mais singular Carnaval de que eu ouvi falar foi o do jornalista Antônio Carlos, que me afirmou que na Barra do Corda se cantava o Carnaval em latim — pode? O latim das orações da quarta-feira de cinzas entoado na bagunça do Carnaval. Não era canto gregoriano, mas samba de breque.

E o “Cara-Dura”, o último carro do bonde que ia para o Anil, todo enfeitado, gente brincando com cofo cheio de capim e a tapioca fazendo o Bloco dos Sujos, onde até urina era jogada na luta da brincadeira.

Depois quiseram encurralar o Carnaval só nos desfiles da avenida das escolas de samba, cada uma querendo ter mais brilho do que a outra e criando um espetáculo que não tinha a espontaneidade dos blocos de rua.

Agora, há um movimento da onda contrária, está voltando o Carnaval de rua em todo o Brasil. Em São Paulo o Prefeito está discutindo se são três milhões e meio ou quatro milhões de bloquistas. Em Recife é o Galo da Madrugada, na Bahia, com bloco ou sem bloco, a turma quer é brincar, reclamando da falta de mictórios — e na falta destes marcham para aquilo que na Bahia chamam de descarrego —, enquanto no Rio também os mijadores de automóvel fazem a festa dos fotógrafos e dos curiosos.

Mas estamos falando é daqui e vamos deixar para lá que eles façam o que quiserem para festejar a alegria. No Maranhão o Carnaval forte sempre foi e será o de blocos de rua, com maizena e sem o rodó (lança-perfume de outrora) a fazer os sovacos cheirosos da folia. A palavra de ordem portanto é botar o bloco na rua… e viva o Rei Momo!

Picasso, quando completou 90 anos, disse: “Ah! Que saudades dos meus oitenta.” E eu, que estou no caminho de lá, que nunca fui carnavalesco, que só gostava mesmo era de assistir os desfiles e ver minha sogra, na Rua do Passeio, com a grande panela de mingau de milho, a receber os bêbados e dar a cada um copázio — eles saíam bons, para recomeçar um novo porre, eu digo:

Ah! Que saudades, não dos meus oitenta, mas do meus dezoito, com baile de máscara, dominó e tudo.

José Sarney

 

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