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Uma mudança de mentalidade

José Sarney

Fui conduzido à política por uma causa bem precisa; o desejo de compreender a economia e saber como ajudar o Maranhão a romper a estagnação. Para isso, sentia-me preparado intelectualmente e o tema, sendo recorrente, estava no centro das preocupações da minha geração. Não me moviam a busca e o de­sejo do poder, pois, aos vinte anos, ninguém tem o dom de adivinhar o futuro. Mas a vida conduziu-me a conviver com ele e a exercê-lo, o que fiz sempre em benefício da causa pública.

Quando assumi o poder, não me deixei sedu­zir pelas facilidades que ele oferece aos oportunistas e carreiristas. Minha preocupação foi abrir o espaço que deveria ser ocupado pelo Maranhão e conquistar o respeito da opinião pública e o destaque na política nacional, onde sempre achei que seria mais útil para defender os interesses do meu Estado.

A primeira coisa que o nosso grupo de jovens intelectuais pensou foi fazer um diagnóstico do Ma­ranhão, para saber por que São Luís parara no tempo e, em 1950, continuava com a mesma área urbana de 50 anos antes, sem nenhum crescimento, conservando os obsoletos e sucateados serviços de transporte, água e energia, construídos no início do século. O sistema de governo era o mesmo: oligárquico, ou seja, aquele que a Revolução de 30 tentara acabar. A oligarquia, como pensavam os revolucionários, era o sistema ba­seado no coronelismo e mantido com os instrumen­tos de mando baseados unicamente na subjugação da coletividade pelo coletor, na extorsão dos impostos, e pelo delegado, no exercício da violência policial contra os cidadãos, com todo o conjunto de ações típicas do arbítrio, do mandonismo, e do autoritarismo com impunidade. Os coronéis, com esses instrumentos, dominavam, mantinham e exerciam o poder e imo­bilizavam as forças sociais. Enquanto os coletores de impostos eram instrumentalizados para as funções de agentes arrecadadores, os delegados comandavam o sistema policial que incluía subdelegados e inspetores de quarteirão, numa rede capilar que atingia até os pequenos aglomerados. Esse sistema foi bem estuda­do por Vitor Nunes Leal no seu clássico livro Coronelismo, Enxada e Voto.

Na minha plataforma de campanha, prometi acabar — e, governador, acabei — com esse anacronis­mo perverso: o coletor não seria nunca mais indicação política e, sim, funcionário público qualificado e no­meado segundo critério técnico. Os delegados seriam escolhidos por concurso e as figuras dos subdelega­dos e inspetores de quarteirão foram extintas. O sím­bolo desse vergonhoso sistema, que não medi esfor­ços para desmontar, eram os famigerados “troncos”, ainda existentes em alguns municípios do interior. Os “troncos” eram correntes de ferro cravadas em pe­sados troncos de árvores ou esteios, onde se acorren­tavam os presos. Tratava-se de uma reminiscência dos tempos coloniais e da escravidão, que perdurava no Maranhão em pleno ano de 1966. Eleito, mostrei na televisão aquelas correntes, macabra imagem daquilo que estávamos erradicando. Muitos dos que ainda fa­lam que o Maranhão não mudou em nada eram res­ponsáveis ou cúmplices desse sistema.

A sociedade ansiava por liberda­de e desenvolvimento. Administrar, no Maranhão, ainda era uma atividade artesanal, resumida a tarefas e insignificantes. Assumindo o governo, a primeira medida que adotei foi a de criar instrumentos legais, técnicos e administrativos que nos permitissem o ingresso na era do planejamento.

Nessa tarefa de ganhar os espíritos para as novas ideias, reuni técnicos, especialistas em diferentes matérias. A essa equipe excepcional de colaboradores atribuo os méritos pelo tanto que se conseguiu em tão pouco tempo. Tive apenas o privilégio de liderá-los. As linguagens novas que in­troduzimos ao abordar os problemas do Estado con­tribuíram para consolidar a consciência cívica para uma gradual mudança de mentalidade.

Foi o que o denominamos de “Maranhão Novo”, talvez a coisa mais importante de nossa História moderna. Busquei a renovação, recrutei só gente nova, que tinha de 27 a 30 anos. A eles dei oportunidade e confiança. Infelizmente alguns deles, que me combatem hoje, não aproveitaram, pensaram somente em conquistar poder e vantagens.

Mas a obra que iniciei e prossegui aí está. O Maranhão passou a ter espaço nacional. Fizemos ministros, ocupamos posições federais, chegamos mesmo a ter um presidente da República. Participamos da História do Brasil.

Foi a geração dos poetas, que me coube liderar, e que só o dogma fanático das ideologias pode pensar em apagar da História.

 

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