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Um livro que traz saudades

Há muito tempo, não vivia um momento da alegria mais pura e da lembrança mais nítida do que agora, ao ler o livro de Eliézer Moreira Filho, que muito me ajudou a dar os primeiros passos para a mudança (esta verdadeira) do Maranhão, o que resolvemos chamar “Maranhão Novo”, agora também o título do livro do Eliézer, a que acrescentou: “A saga de uma geração”.

É um livro documentado, pouco opinativo e muito na fixação de fatos e decisões que transformaram a face do nosso Estado. Antes da eleição, Bandeira Tribuzi, Nivaldo Macieira, Emiliano Macieira e eu já formulávamos o que seria o Plano Básico do Governo, o que nos propúnhamos a realizar, uma vez eleitos.

Em dias e noites, no Sítio Natal, em frente ao Filipinho, nós nos reuníamos pensando nas linhas mestras que iríamos defender na campanha e, sem dúvida alguma, realizar no Governo.

Eleitos numa campanha memorável — que jamais se repetirá na História do Estado, até mesmo porque os tempos mudam, mudam os costumes e o modo de fazer política —, a primeira coisa que tínhamos, como maior desafio, era a questão de recursos humanos. E foi essa a minha primeira tarefa.

De início, fui à Sudene e apelei para que constituísse um grupo técnico que me ajudasse na formulação da governança. De lá, veio o núcleo que depois se chamou GTAP (Grupo de Trabalho de Assessoria e Planejamento). De outros lugares do Brasil, alguns jovens se sentiram tocados pelo sentimento do Maranhão e para cá se deslocaram atendendo ao meu chamamento. Entre esses, quero ressaltar Eliézer Moreira, que foi deputado estadual, deputado federal e membro da Constituinte.

Eliézer logo se mostrou como homem experiente, bom administrador, organizado, formulador e discreto no falar e no sugerir. Daí o seu livro ter uma série de anotações, uma verdadeira memória daqueles tempos, com nomes e detalhes que já se tinham esfumaçado em minha memória com a passagem do tempo.

Seu livro é um valioso repositório, um extraordinário subsídio para quem quiser, daqui para a frente, estudar a História do Maranhão em seus determinados períodos. Rico em detalhes e enriquecido por fotografias de alguns personagens que já tinham desaparecido da lembrança — pois não eram protagonistas, mas nem por isso deixaram de compor a paisagem que, já morta, agora ressuscita.

Livro isento, até mesmo nas críticas, que aqui e ali escapam, serve para que, em minha dupla leitura, vista-me de autocrítica para verificar os pontos em que errei. Destes, vejo que o maior de todos foi o de entregar a administração à nova equipe, que formara a continuidade do Governo do Estado, sem atentar para o fato de que os meus sucessores não tinham a mentalidade de renovação que presidira o movimento que me levara ao poder, que eu chamei de “a geração dos poetas”.

Destruíram tudo. Logo de início, a Sudema — núcleo mais forte que constituíramos para executar o planejamento que, pela primeira vez, era implantado numa administração.

Para que se veja o esforço e a mudança que se operou, basta ver a relação da estrutura que criamos no Estado, que não tinha nada antes: GTAP, para o planejamento; COHAB, para a construção de casas populares — mais de dez mil; TELMA, Telecomunicações do Maranhão SA, pioneira no Brasil na era das comunicações; CAEMA, Companhia de Água e Esgoto; CODEBAM, Companhia de Desenvolvimento da Baixada Maranhense, que nos deu os ferry-boats; SANEL, Companhia de Saneamento de São Luís; Projeto João de Barro, que construiu mais de 1.200 salas de aula e é motivo, até hoje, de teses acadêmicas; Faculdade de Engenharia; Faculdade de Administração; Faculdade de Educação, em Caxias; idealização da Faculdade de Medicina Veterinária; CEMA, a TV Educativa, primeira no Brasil; Projeto Bandeirante, construção de ginásios no interior — quando entrei, só havia um, o Liceu Maranhense; Conselho Estadual de Cultura; SUDEMA, “centro irradiador de ideias e ações”, concebeu o Orçamento-Programa de Investimentos e o Plano Quadrienal de Investimentos do Maranhão; Banco de Desenvolvimento do Maranhão; CETRAP, Comissão Especial de Transferência de Populações, encarregada de assentar os palafitados nas novas residências — a exemplo o Bairro do Anjo da Guarda. E muitas e muitas outras ações, que não cabem num artigo.

Espero voltar ao livro do Eliézer mostrando que ele prestou um grande serviço à História Administrativa do Estado. E recomendo que todos o leiam.

Mas o que considero mais importante no que realizamos foi a mudança de mentalidade do Estado, que passou a pensar em progresso e justiça social. Não tenho mais espaço para continuar. Tentarei voltar ao assunto depois, mas, antes de terminar estas linhas, lembro São Paulo, que dizia, em uma de suas epístolas, que, muitas vezes, temos um anjo em nossa frente e não o sabemos. Talvez Eliézer tenha sido, naquele tempo e agora, um desses anjos.

José Sarney

 

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