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As tragédias de cada dia

A vida humana é frágil. Isso é quase um bordão, mas é algo que nos atinge como um golpe quando vemos a multiplicação das tragédias de todo tipo. É difícil, para quem as sofre, saber que podemos classifica-las em maiores e menores. Cada uma atinge esse sentimento inefável de continuidade da vida, absurdo, pois a mortalidade é nossa essência, mas que sempre está presente.

Esta semana o Brasil ficou perplexo com tantos atos irresponsáveis que resultaram no desabamento de parte da ciclovia da Niemeyer, no Rio de Janeiro, e na morte de pelo menos duas pessoas. Como não se pensou nas ondas, parte tão visível da avenida que o homem abriu numa ponta de pedra que invade o mar e que, todo o tempo, o mar tenta reconquistar?

Essa revolta da natureza pode ser terrível, e é, quando construímos nestas áreas a que chamam “cinturão de fogo”, e que envolve o Oceano Pacífico. Os terremotos da semana passada, atingindo magnitude 7 no Japão, na sexta-feira, e magnitude 7,8 no Equador, no sábado, são a demonstração da vez. Os mortos — 430 no Equador —, os desabrigados — 120 mil no Japão —, mas também todo o impacto sobre os esforços de tanta gente para construir casas, ruas, cidades, estradas, dando-lhes condições de morar, e ali depositar tudo que tinha, e tudo se perder. É claro que o que é material se reconstrói, e a vida não retorna neste mundo, embora, para os que creem, seja eterna.

Mas quando sentimos realmente uma mistura de indignação e desespero é quando acompanhamos o que acontece na Síria e com os sírios. Os números perdem quase o significado: 4.700 mortos em bombardeios da coalizão ocidental, 4.000 mortos pelo Estado Islâmico, centenas de mortos nos últimos dias no bombardeio da cidade de Alepo pelos russos, centenas e centenas de milhares atravessando os mares, as montanhas, o medo, a fome, o frio, a indiferença, a hostilidade, o preconceito, a espantosa intolerância entre os que estão e os que chegam — e os poucos gestos de compreensão, de solidariedade, de amor, pelos quais devemos erguer as mãos aos céus e agradecer que ainda existam.

Os europeus e americanos, de um lado, os russos, de outro, e os vários países da região, árabes ou turcos, não podem ficar na disputa infrutífera de vantagens estratégicas. Com tanta vida em jogo, com tanto sofrimento, o caminho obrigatório é o que o Papa Francisco tem proposto, inclusive com o exemplo de acolher famílias muçulmanas que encontrou em Lesbos, na Grécia: o sentimento de fraternidade humana deve se sobrepor a todas as diferenças e fazer cessar toda a discórdia. Não se encontrará certamente compreensão do lado do Estado Islâmico, todo ele feito de ódio, mas se o resto do mundo se unisse, tudo, tudo mesmo seria mais fácil.

Nós, aqui, só podemos rezar.

 

José Sarney

 

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