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Saulo Ramos

Saulo Ramos foi meu amigo desde que nos encontramos, em 1959, na campanha presidencial de Jânio Quadros. Sua inteligência fulgurante — uma das maiores que o País teve — chamou logo minha atenção. Nossa amizade foi se tornando mais estreita e passamos, com o tempo, a nos tratarmos como irmãos.

Saulo começou muito moço a advogar. Foi colaborador do Professor Vicente Rao, e herdou seu escritório de advocacia, que manteve como um dos mais importantes do Brasil. Conhecia Direito profundamente, e era um jurisconsulto respeitado. Mas, quando o convidei para ocupar uma vaga no Supremo Tribunal Federal, recusou, dizendo-me: “Sarney, minha alma é de advogado.”

Tinha enorme vocação de escritor. Seu poema Recado ao Caseiro é uma obra prima. Seus poemas foram também publicados em Café — A poesia da Terra e das Enxadas e, no ano passado, em Fora da Lei, e foram traduzidos para o francês. O livro de memórias — construído com maestria em torno de uma longa disputa judicial — Código da Vida tornou-se um best-seller, e, pelos casos jurídicos de que trata, foi adotado em vários cursos universitários.
Conhecia como poucos a cultura popular, sobretudo do Nordeste, e era um mestre da literatura de cordel, que sabia de cor um repertório inesgotável.
Abriu mão de seu escritório generosamente para auxiliar-me quando fui Presidente da República, aceitando os cargos de Consultor Geral e de Ministro da Justiça. Nos dois postos foi uma das pessoas mais importantes do governo, dando imensa contribuição no dia a dia da administração e também em momentos extraordinários como a discussão da nova Constituição.

Foi muito vinculado a Santos e a Ribeirão Preto, mas nunca deixou de pensar na terra em que nasceu, Brodowisk. Portinari, o outro grande nome da cidade, pintou um belo retrato seu, que é a imagem do jovem advogado com alma de poeta.

O Brasil perdeu um humanista, uma extraordinária personalidade e um advogado que tem, incontestavelmente, um lugar entre os maiores do século XX.

 

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