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Sarney lembra da morte de JFK assassinado há 50 anos

Durante a Sessão Plenária dessa segunda-feira (25), o senador José Sarney (PMDB-AP) lembrou os 50 anos da morte de John Fitzgerald Kennedy, ex-presidente americano, assassinado em 22 de novembro de 1963, enquanto desfilava em carro conversível, ao lado da mulher, Jacqueline Kennedy, na cidade de Dallas – TX.

 

 

Acompanhe o discurso abaixo:

Sr. Presidente, em primeiro lugar, eu quero agradecer a V. Exª por me dar a palavra, bem como aos Srs. Senadores que tiveram a bondade de ceder-me a sua precedência.

Na sexta-feira, completou 50 anos a morte de John Kennedy. Eu tinha preparado algumas palavras, que escrevi com emoção, sobre esse grande homem da humanidade.

Infelizmente, quando aqui cheguei, às 10 horas da manhã, a nossa sessão já estava encerrada, por falta de número no plenário da Casa, mas eu resolvi que hoje eu devia, por uma necessidade pessoal, emotiva, até posso dizer, falar e ler algumas dessas palavras que tinha escrito.

É que Kennedy influenciou profundamente a minha geração, a nossa geração, e jamais, da minha memória, desapareceu aquela tarde indelével em que, Deputado Federal, aqui, na Câmara, recebíamos, com grande impacto, a notícia do seu assassinato em Dallas. Foi uma comoção, porque realmente Kennedy conseguiu imprimir em todo o mundo uma chama de esperança sobre o futuro da humanidade.

Depois da 2ª Guerra Mundial, todos nós vivíamos um clima de grande vontade de que o mundo – e pensávamos assim –, depois da vitória sobre o nazismo e o fascismo, iria atravessar um longo período de paz e que a humanidade, por fim, superaria os seus caminhos mais controversos, para marchar para um entendimento entre os homens de boa vontade.

Infelizmente, logo depois do armistício, começamos a sentir o levantamento de uma barreira que mantinha e que manteve, por mais de 70 anos, a separação do mundo. Churchill foi quem primeiro a chamou de Cortina de Ferro. E iniciou-se a Guerra Fria, que se aguçava mais como um enfrentamento maior para a humanidade, porque a descoberta da bomba atômica tinha, sem dúvida, começado a fazer com que nós, ao falar de guerra, pensássemos na sobrevivência do homem na face da Terra.

Esse era um clima que começava a dominar o mundo inteiro, que passava a perder aquela esperança, que o fim da guerra de 45 determinara, em um período de paz, pela ameaça, por um sentimento de medo em relação a uma futura guerra mundial. E a eleição de Kennedy representou, sem dúvida, uma esperança muito grande, porque ele levantou a bandeira dos novos tempos, da nova fronteira, e que devíamos realmente construir uma convivência mundial.

Lembro-me bem do choque que sofri. E lembro-me até hoje – é até uma das maiores peças da oratória parlamentar – do discurso que o Padre Godinho, então Deputado Federal por São Paulo, fez sobre a morte do grande estadista. E passamos a acompanhar a repercussão mundial, a repercussão nos Estados Unidos e a emoção com que aquela tragédia atingia o mundo inteiro.

Nesses 50 anos, Kennedy passou a figurar, insistentemente e permanentemente, na lista dos maiores presidentes americanos. E até hoje ficamos sem compreender muito bem, mas ele está na frente de Lincoln, de Washington, de Roosevelt; é considerado, nos Estados Unidos, como o maior presidente que já teve esse país. E é uma coisa que chama atenção, porque ele deixou muito mais por fazer; os seus planos não ficaram inacabados. E ele deixou muito mais a chama da esperança do que ele teria podido do que realmente o que tinha sido possível realizar. Mas esse espírito dele foi justamente o espírito que construiu a sua imagem ao longo do tempo.

Quando se aproximava o fim do seu mandato, que seria quase certamente renovado no ano seguinte, havia uma lógica nessa esperança: a mensagem que conseguiu imprimir e que acompanhava o caminho que traçara no discurso da convenção do Partido Democrata, lançando a “nova fronteira”.
Foi nessa convenção que ele disse:

Pois os problemas não estão todos resolvidos e as batalhas não estão todas ganhas – e nós estamos hoje no limite de uma nova fronteira… Mas a nova fronteira de que falo não é um conjunto de promessas; é um conjunto de desafios. Ele resume não o que eu pretendo oferecer ao povo americano, mas que eu pretendo pedir a ele.
Isso ele disse na convenção e já estava embutida nessas palavras a famosa frase que pronunciou no seu discurso de posse: “Não pergunte o que seu país pode fazer por você, pergunte o que você pode fazer por seu país.”

Ele convocava o povo americano para a luta contra a tirania, a luta contra a pobreza e a luta contra a guerra. E dizia que não era uma tarefa para cem dias, nem para mil dias, nem talvez para uma vida, mas que valia a pena começar.
Mais tarde, perto do seu fim, ele escreveu:

“Todo presidente deve suportar uma diferença entre o que ele gostaria e o que é possível”.

E repetia uma observação de Roosevelt – é uma frase que é muito conhecida e que todos falam –, que dizia:

“Lincoln era um homem triste por não conseguir tudo de uma vez. E ninguém pode.”
Tendo passado pela Presidência da República, sei o quanto essas duas frases são verdadeiras.

O New York Times de 25 de outubro diz que foram publicadas cerca de 40 mil obras — 40 mil obras! — sobre John Kennedy. Para nós, que damos muito pouca importância ao passado, é um número quase inacreditável, mas, mesmo num país apaixonado por livros e por figuras públicas como são os Estados Unidos, esse número é espantoso.

No entanto, ainda o New York Times fala que falta uma obra de referência sobre Kennedy, uma obra definitiva. Mas, pelo meu pensamento, nunca ele terá essa obra definitiva: todos aqueles que sofreram martírio, como Júlio César e como Kennedy, jamais terão uma obra definitiva. Falar-se-á sempre na sua vida e na sua morte.

Recentemente, saíram alguns livros muito importantes que valem a pena a gente ler, como Uma Vida Inacabada, de Robert Dallek e John F. Kennedy, de Alan Brinkley. Entre os clássicos, o The Death of a President, de William Manchester, com a narrativa das emoções e dos acontecimentos dos dias de novembro; o premiado A Thousand Days: John F. Kennedy in the White House, de Arthur Schlesinger, que é um grande historiador, sobre o que presenciou na Casa Branca naqueles dias; President Kennedy: Profile of Power, de Richard Reeves, e a obra de Theodore White sobre a campanha presidencial vitoriosa, The Making of the President 1960.

Há ainda, entre o material considerado excepcional, transcrição de entrevistas originais de Jacqueline Kennedy, saídas agora, com Schlesinger, e de gravações de conversas políticas na Casa Branca.

O próprio John Kennedy escreveu um livro que foi muito lido no meu tempo: Profiles in Courage, em que ele descreve a coragem de muitos senadores que, diante de uma pressão da opinião pública, diante de um fato consumado, tiveram a coragem de se manifestar contra e de votar contra. Ele fala nesse seu livro justamente desses casos exemplares de como o homem enfrenta momentos difíceis e tem a coragem de afirmar suas posições, principalmente dentro dos Congressos.

Joaquim Nabuco, nos seus discursos parlamentares, tem uma frase que diz que, quando uma onda gigante na política avança sobre você, ele fala, ele o grande Joaquim Nabuco, que, muitas vezes, a gente não deve enfrentá-la com o peito para não ser derrubado, mas deve mergulhar para que ela passe por cima.

Nesse seu livro, Kennedy fala sobre o significado da coragem, e pode-se dizer que esse significado da coragem de que ele fala está resumido numa frase, num período mais longo, mas, na primeira parte, ele diz:

“Porque a necessidade de cada um de manter seu respeito próprio” – fala sobre o tempo e as personagens que ele pesquisou – “era mais importante para si do que sua popularidade com os outros.”

Kennedy começou muito mal a sua relação com a União Soviética. Kruschev determinou a construção do muro de Berlim, e o plano da invasão de Cuba, aquele malogrado e trágico plano da Baía dos Porcos, que todos dizem, até hoje, que foi uma armadilha que foi deixada pelo Eisenhower e que ele caiu nessa armadilha. Em outubro de 1962, o mundo chegaria a um passo do desastre nuclear com a crise dos mísseis e viria, aí, a reversão das expectativas.

Hoje, ninguém sabe o que foi a crise dos mísseis, mas eu devo recordar. O que se chama de crise dos mísseis foi quando a União Soviética mandou depositar em Cuba, a uma distância muito pequena dos Estados Unidos, mísseis capazes de carregar ogivas atômicas.

Então, aquilo era uma ameaça nuclear real para os americanos, e Kennedy viveu um momento difícil – como lidar com aquele problema? E viveu essas emoções junto com seu irmão Robert Kennedy, que, então, era Procurador-Geral, cargo equivalente a Ministro da Justiça.

Nós acompanhamos o que é que ia, realmente, resultar desse problema. O mundo estava à beira de uma guerra nuclear, porque os americanos, primeiro, bloquearam a chegada de navios, com armas e foguetes, a Cuba. A União Soviética reagiu de uma maneira também dura e criou-se o impasse, e esse impasse resultou no acordo que Kennedy construiu com Kruschev, auxiliado por Robert Kennedy, de retirar os mísseis de Cuba que poderiam levar bombas atômicas aos Estados Unidos, ao mesmo tempo em que os Estados Unidos se comprometiam a não invadir Cuba, e é por isso que Cuba até hoje permaneceu sem que os americanos nunca mais tentassem invadir seu território.

Foi o acordo feito naquele momento para salvar o mundo de uma confrontação nuclear que não se sabia onde ia terminar, que certamente levaria o mundo à destruição. E também, naquele momento, Kennedy estabeleceu com Kruschev, em plena Guerra Fria, com medo de o mundo cair, até mesmo num erro qualquer que pudesse ocorrer de uma guerra nuclear, um telefone vermelho direto do Presidente dos Estados Unidos com o Secretário-Geral do Partido Comunista, que, naquele tempo, era a nomenclatura do Presidente da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

Nunca se saberá se Kennedy pensava sair da armadilha do Vietnã, conforme sustentaria o Secretário de Defesa, MacNamara, ou se faria a mesma escalada que dividiria o País e seria fonte de tantos crimes de guerra no governo de seu sucessor, Lyndon Johnson.

Eu conheci MacNamara pessoalmente, numa fundação internacional da qual participo, que se chama InterAction Council, que é constituída de ex-Presidentes da República e de ex-Chefes de Estado, são 40 membros. Quando eu entrei naquela entidade, em 1992, ela era presidida pelo então Primeiro-Ministro do Japão, Fukuda; depois, passou a ser Presidente, com a morte do Fukuda, Helmut Schmidt, que, até hoje, exerce a Presidência de honra, porque já está bastante idoso e não quis mais, mas, em toda reunião, ele sempre está presente. E, nessas reuniões, se discutem os problemas da humanidade que estamos vivendo, e, nessa época, nós íamos discutir segurança da Ásia em uma reunião que tivemos em Xangai. Nessa reunião estava o McNamara, que fez uma exposição brilhante sobre a vocação da China, dizendo que a China sempre pensou em ser uma potência continental e nunca quis ser uma potência naval, mas que agora estava querendo tornar-se também uma potência naval e enfrentar, em nível mundial, o poder que ela poderia ter e que começava a emergir naquele ano de 92.

Eu tive uma conversa com McNamara, falei sobre o que ele representara. Na minha cabeça estava o McNamara do tempo do Kennedy e quis avançar um pouco sobre o problema do Vietnã. Confesso que ele não deu muitas condições de avançarmos numa conversa mais profunda sobre esse assunto.
Eu citei o livro do Dalek, que eu li, Uma Vida Inacabada, porque ele disse que “no fim de novembro de 1963, Kennedy era receptivo a sugestões para mudar as políticas em Cuba e no Vietnam”, e que no dia 21 encomendou “um estudo em profundidade de todas as opções quanto ao Vietnam, inclusive como sair de lá”.

Falando sobre Kennedy e aquele tempo, eu tenho a certeza, e ele dava todos esses indícios, de que ele tinha uma preocupação de buscar, obsessivamente, a paz, inclusive naquele famoso discurso em que ele disse:

“O problema mais importante na Terra: a paz mundial. A que espécie de paz eu me refiro?” — Então, teve coragem de dizer: — “Que espécie de paz nós buscamos?” — E respondia: — “Não a Pax Americana imposta ao mundo pelas armas de guerra americanas. Não a paz das sepulturas ou a segurança do escravo”.

Se a gente refletir nessas palavras, naquele tempo, um presidente americano que tinha a guerra do Vietnã, que tinha a Baía dos Porcos, que tinha formação da Otan na Europa, que participava com a tese de que em todo lugar onde existisse o comunismo a América devia confrontar-se, era realmente uma demonstração de um grande espírito de coragem, quando ele dizia que não buscava a Pax Americana pelas armas americanas.

Para chegar à paz, acreditava, porém, que ele devia ser firme na condução da Guerra Fria. Em sua visita a Berlim, uma multidão gigantesca o esperava, e, então, ele fez aquela famosa frase que ele pronunciou em alemão: “Ich bin ein Berliner”, quer dizer: “eu sou um berlinense”. Só que, pouco depois, ele mesmo reconhecia que não tinha sido feliz, porque Berliner, berlinense, também era um doce muito popular na cidade. E ele disse que não, que ele era um berlinense, e muita gente interpretou como se fosse o pequeno e popular doce. Ele fala depois isso, que não foi feliz na formulação dessa frase. Mas ela marcou a posição mundial de condenação ao Muro de Berlim.

Eu acho uma coisa terrível a construção de muros. Sabe-se, na história da humanidade, que muros não resolvem nada, desde a Muralha da China, há milênios, desde o Muro de Berlim, que ruiu, até o muro que hoje estão construindo para dividir Israel da Palestina.

Uma de suas iniciativas importantes foi, por exemplo, o Peace Corps, que era uma espécie de Projeto Rondon, em que ele motivou a juventude universitária americana para, no mundo inteiro, participar de ações voluntárias para ajudar os países mais pobres. E até me recordo do seu discurso ao primeiro grupo de jovens que se inscreveram no Peace Corps: “Vocês devem, nos lugares para estão indo, se comportar, com toda a correção, levando e projetando a imagem dos Estados Unidos”. Aí, numa brincadeira jocosa, disse: “Só peço a vocês o seguinte: não apedrejem a embaixada americana, como fazem os nativos desses lugares para onde estão indo.”

Também Kennedy iniciou, no seu governo, um gigantesco projeto de combate à Pobreza, que só seria aprovado pelo Congresso americano no governo Johnson. Mas, sem dúvida, foi um avanço grande e decisivo num país muito marcado pelas desigualdades. Seus efeitos durariam até o fim do século, quando o problema voltaria a ser crítico nos Estados Unidos.

Já no combate à discriminação racial, sua contribuição, com a importante participação de Robert Kennedy e, indiretamente, do Presidente da Suprema Corte, Earl Warren, seria decisiva. Esse é um homem que deve ser lembrado, porque, como Presidente da Suprema Corte americana, foi o homem que sustentou, assegurou, pela primeira vez, os direitos civis, possibilitando aos pretos, aos negros, entrarem nas escolas, sem discriminação. Essa contribuição seria decisiva, embora sua proposta legislativa mais importante, o Ato dos Direitos Civis, que ele fez, também só fosse aprovada em 1964.

Johnson passou para a história. Esse homem, que foi parlamentar durante 24 anos, era tido como medíocre, mas, durante sua presidência, votou todas as leis de abertura de direitos civis dos Estados Unidos. Ele aproveitou sua capacidade e sua convivência com os parlamentares, para que essas leis pudessem ser aprovadas e os americanos tivessem à disposição essas leis, que significaram um avanço importante na luta pela integração racial e pelos direitos civis, que passaram a ser respeitados.

Foi no tempo de Kennedy que se realizou a Marcha sobre Washington, em que Luther King teve a oportunidade de pronunciar aquela frase “I have a dream” – eu tenho um sonho. Na área da imigração e do Medicare, que é um sistema de previdência que propôs e que agora Obama ampliou muito mais, as leis viriam em 1965, com a colaboração de outro irmão, o Senador Edward Kennedy.

Também em relação ao direito das pessoas com deficiência, o governo Kennedy conseguiu catalisar a opinião pública e transformou isso, em poucos anos, numa atitude social.

Na aventura espacial, Kennedy propôs a colaboração com a União Soviética, que não aceitou, que recusou. Com a viagem de Gagarin, em 1961, Kennedy anunciou a meta da ida de um homem à lua. Seu colaborador, dessa vez, foi o Vice-Presidente Johnson. Em 1963, o Presidente voltaria a propor a colaboração espacial com os soviéticos. Mas, mais uma vez, naquela radicalização que existia na Guerra Fria entre o mundo ocidental e a União Soviética, essa não foi aceita. Mas foi uma grande vitória de todos os homens, quando, em 1969, os americanos mandaram, pela primeira vez, um homem à lua.

Ao falar aqui dos Estados Unidos, eu devo fazer uma grande justiça a esse país, que se transformou num país líder do mundo inteiro, com a força que ele teve. Esse país empregou a sua força para quê? Para os ideais de liberdade, desde a declaração da independência, espalhando pelo mundo inteiro a ideologia, quase a mitologia, da democracia. Calculem se os Estados Unidos tivessem, com a força que eles têm no mundo, a visão de dominar o mundo que teve Hitler, da Alemanha, ou que teve o fascismo do Mussolini, ou que teve Stalin, na União Soviética. Não, ao contrário, foi um país que difundiu e que procura difundir no mundo inteiro os ideais de liberdade e de democracia. Evidentemente, nós temos de ver que essas coisas não são só o fim, mas os meios que apareceram, muitos deles condenáveis, como os conflitos localizados em que eles se meteram, em que participaram, sempre achando que deviam alcançar esse resultado final, que não foi alcançado até hoje, mas em que todos nós estamos empenhados.

Robert Kennedy, irmão do Presidente, também conduziu o combate ao crime organizado, seguindo iniciativas que eles tinham tido na década anterior. Herói de guerra, Kennedy havia sido Deputado por Massachusetts durante três mandatos, de 1947 a 1953, quando foi eleito Senador, e reeleito em 1958. Em 56, tentou o lugar de candidato a Vice-Presidente na chapa de Adlai Stevenson.

Eu aqui faço um parêntese também para agradecer a vida que Deus me deu, pois eu também tive oportunidade de conhecer Adlai Stevenson, um intelectual, um homem extraordinário. Eu o conheci nas Nações Unidas, quando ali estava em 1961. Falava primorosamente, era um grande orador, com grandes ideias, um intelectual de grande estirpe. E eu agora, ao relembrar a sua figura, sou obrigado a fazer essa reminiscência.

Desde a Câmara, Kennedy forjou aliança com os sindicatos, especialmente com o AFL-CIO, que seria decisiva para a sua carreira.

O aniversário da morte de Kennedy é uma boa ocasião para refletirmos sobre o papel dos Estados Unidos no mundo e nossa relação com eles. Seria um erro primário pensar que são um país como os outros. Desde sua fundação, sob o signo da declaração de independência redigida por Thomas Jefferson, afirmando que “todos os homens são criados iguais, são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, entre estes à vida, à liberdade e à busca da felicidade”, esta construção do espírito democrático influencia o mundo.

Com a Constituição de 1787, inigualada no sucesso de sua estabilidade, da capacidade de forjar uma grande nação, rica e poderosa, os americanos estabeleceram um modelo que ainda não foi superado.

E ao falar em Jefferson, devo dizer que, quando foi feita a Constituição Americana, ele não se encontrava lá; não fez parte dos Constituintes de Filadélfia. Ele estava como Embaixador na França. Mas, sem dúvida alguma, foi também Presidente dos Estados Unidos e um dos maiores homens também produzidos pela inteligência americana e um grande estadista. Até hoje, ele é motivo e fonte de inspiração quando se procura ler os seus textos.

Basta ver quem ele era quando ele determinou que, quando morresse, fosse enterrado e na lápide do seu túmulo fosse colocado apenas o seguinte: “Criador da Universidade da Virgínia e autor da Declaração de Independência.” Não quis que colocassem que foi Presidente, mas julgava importantes esses dois pontos pelos quais ele queria ser identificado para a eternidade.

Quando fui Presidente da República, tivemos contenciosos com os Estados Unidos. O mais agudo era o problema da dívida externa, que, como a dos demais países devedores, era um problema político, mais que financeiro, pois surgira de manobras macroeconômicas unilaterais que nos deixaram como devedores de uma dívida multiplicada por juros que queriam que pagássemos com a recessão, isto é, com a miséria dos mais pobres. Era um preço que eu jamais violentaria as minhas convicções políticas e morais para fazer.

Problema semelhante existe hoje, com a atual crise econômica, que atinge mais severamente países europeus e os próprios Estados Unidos, mas que também reduziu sensivelmente o crescimento do resto do mundo, inclusive o nosso. Daí a necessidade de controles coletivos sobre o sistema financeiro, hoje interligado num só monstro que, sem organização, está sujeito a especulações e classificações especulativas, como essas duvidosas avaliações das agências de risco, que, em grande parte, foram responsáveis pelo que aconteceu na Europa. Essas agências de risco, ao classificar os países com percentuais e dizer que estavam em baixa, criaram o pânico.

O comportamento de Brasil e Estados Unidos diante dessas crises pode ser ilustrado pela política de Kennedy, que acreditava na negociação, inclusive com os adversários. Assim, na questão das armas nucleares, instruía pessoalmente o seu enviado, Averell Harriman, a insistir num acordo, mesmo limitado, com os soviéticos. A interdição dos testes nucleares de superfície, aparentemente tão pouco, foi um começo que mudou a expectativa do povo americano.

Em nossas relações com os Estados Unidos, temos que lembrar que é o nosso maior parceiro comercial. Superamos os problemas de patente, mas sempre teremos de enfrentar barreiras comerciais pontuais.

Para ver a inabilidade que esse grande país tem na gerência desses problemas, eu vou contar um fato em relação ao Brasil.
No dia 7 de setembro de 1985, eu tinha assumido a Presidência da República. Pois bem. O Itamaraty me traz um telegrama. Eu pensei que fosse um telegrama de congratulações pela data nacional, que eles diziam que era urgente. Pois não era. Eram sanções contra o nosso País na questão do aço.

Ora, não era possível que os americanos não tivessem um departamento de Estado nem instruído o Presidente de que aquela era a data nacional da independência do País. E foi nesse dia que eles passaram a fazer as retaliações com o Brasil. Veja a inabilidade. E, muitas vezes, isso é feito sem segundas intenções, mas, na realidade, sem considerar essa coisa que o Rui Barbosa defendia em Haia e que passou para a eternidade: a igualdade das nações.

Sendo as relações internacionais movidas por interesses, podemos e devemos tornar interessante aos nossos parceiros, especialmente aos Estados Unidos, sem qualquer preconceito, fazer negócio conosco.

A viagem de Kennedy a Dallas, ela já era bastante temida, porque era um Estado hostil. Adlai Stevenson, de que tive oportunidade de falar, tinha estado, pouco tempo antes do assassinato, em Dallas e recebera uma chuva de ovos numa manifestação, para que se veja que essas coisas não acontecem somente em países com democracias ainda incipientes.

Havia na cidade um clima de ódio que tinha o Kennedy como comunista e traidor da pátria. Cartazes de “Procura-se” com a imagem de Kennedy podiam ser vistos em toda parte. O principal jornal o atacava violentamente em vez de saudá-lo. A famosa associação de extrema direita John Birch Society publicou um anúncio acusando-o de pró-comunista. E há uma ala radical que, mesmo agora, tantos anos passados, se vê: a ressurreição do Tea Party que ocorre nos Estados Unidos, dos radicais.

Eu estava, isso em 61, em Nova York. Fui almoçar na casa de umas pessoas americanas que trabalhavam na ONU. Lá, o dono da casa me perguntou: “Por que vocês, sul-americanos, tanto gostam do Roosevelt?” Eu disse: “Porque Roosevelt foi quem criou a política da boa-vizinhança, foi quem primeiro olhou para a América Latina com outros olhos: os olhos de cooperação, os olhos de ajuda.”

Sabem o que ele me respondeu? “Roosevelt era um comunista! Na Convenção de Yalta, ele entregou o mundo ocidental aos comunistas. Ele submeteu-se ao Stalin.” E eu fiquei estarrecido com aquela declaração. Conto isso para mostrar de que maneira o ódio político, o radicalismo, é capaz de turvar a razão das pessoas.

O Presidente Kennedy reagiu – eu estava falando de quando ele foi acusado de pró-comunista –, mostrando o anúncio circundado com uma tarja negra a sua mulher:

“Estamos indo para um lugar de doidos. Mas, Jackie, se alguém quiser me alvejar de uma janela com um rifle” – Ele era profético! – “ninguém pode impedi-lo, por isso não adianta se preocupar.”

Sua visão fatalista da morte era marcada pela perda de dois irmãos e por seus graves problemas de saúde que o tinham levado a receber a extrema-unção em 1947 e 1953. E ele não teve extrema-unção ao morrer. Mas sua mulher, Jacqueline Kennedy, no momento em que o médico foi comunicá-la que ele estava morto, pediu: “Não anuncie a morte do Presidente sem que antes eu traga um padre para dar-lhe não a extrema-unção, mas para rezar aqui, no seu cadáver.”

Nunca se saberá se a bala que o matou, arrancando um pedaço do seu cérebro, foi realmente atirada por Lee Oswald e obra de um homem isolado ou de uma conspiração. Mas o detalhe não muda o resultado: a interrupção da carreira de um político excepcional aos 46 anos, deixando um vazio que se multiplicaria quando seu irmão Robert, em campanha para a presidência, seria igualmente assassinado, em 1968.

Theodore Sorensen, um dos seus mais íntimos colaboradores, tem um parágrafo sobre este vazio:
Incontáveis indivíduos notaram que a morte do Presidente os afetou mais profundamente que a morte de seus próprios pais. A razão, creio, é que esta representa a perda do passado, enquanto o assassinato do Presidente Kennedy representa uma incalculável perda do futuro.

O Presidente da Suprema Corte – eu falei no nome dele –, Earl Warren, de quem se disse que seu tempo seria marcado como a Era Warren, escreveu a Jacqueline:
Nenhum americano, em minha longa vida, jamais visou mais alto, buscando uma América melhor, ou centrou seus ataques mais precisamente nos problemas e impotências de nossa sociedade do que ele.

Quem fez o inquérito definitivo, naquele tempo, sobre a morte do Presidente Kennedy e presidiu esse inquérito foi o Juiz Warren, que fez o relatório. Entrou em todos os detalhes, tudo o que ele pôde fazer e concluiu realmente pela versão, de que ele foi morto por um fanático que, isoladamente, o alvejou naquele começo de tarde de Dallas. E ele, no fim do relatório, tem uma frase: Esta é a verdade. Mas daqui a mil anos ainda se discutirá, como de César, as circunstâncias da morte de um homem dessa grandeza.

Então, para terminar o discurso, já que eu tinha pincelado essa frase do jornalista James Reston, que foi comentarista do The New York Times durante muito tempo, eu vou fazê-lo: Roubado do lugar que buscava na história, ele recebeu, em compensação, um grande lugar no mundo das lendas.

Muito obrigado.

 

 

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