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São Luís precisa de amor

São Luís era uma cidade antiga, e como antiga teve o seu centro histórico tombado e tornou-se patrimônio da humanidade. Agora está ficando uma cidade velha, velha e doente.

Acompanhei, em Nápoles, a reunião da Unesco que deliberou sobre o pedido do Brasil. Foi o reconhecimento de que a história do homem na face da Terra passou por esse chão. Realmente São Luís é o maior conjunto colonial do mundo português. Os portugueses, durante 150 anos, dominaram os mares, atravessaram os continentes, levando a língua portuguesa até os confins do mundo, o Japão, deixando costumes e trazendo costumes e, a seu modo, criando uma arquitetura, que permanece como uma representação da cultura portuguesa do tempo dessa extraordinária aventura. Mas foi em São Luís que foi deixado o seu maior exemplo, esses prédios de azulejos, esse mar de telhados, que nós soubemos preservar. Por quê? As outras cidades se destruíram, se dissolveram, se misturaram, se mesclaram com deformações. Por que São Luís ficou tão preservada? Pelo amor que ela despertou em todos os maranhenses, que, ao longo destes séculos, aqui estivemos e a que nós, hoje, estamos no dever de dar continuidade, para que, no futuro, possamos continuar este amor, que é o amor que toda a população de São Luís tem pela cidade. Amar a cidade, amor à cidade, é esse o segredo.

A cultura foi o que lhe deu projeção. Trouxe para si os olhares do mundo, levou sua beleza como uma bandeira desfraldada.

Mas agora a cidade está abandonada. Cada vez que venho visitá-la o que testemunho é a deterioração. São os casarões maltratados. Falta pintura. Faltam azulejos. Faltam telhados, ah! os telhados de São Luís. As paredes despencadas se multiplicam. As fachadas que ficam estão cheias de vegetação, aqui e ali já árvores inteiras, a elas agarradas, estrangulando-as. As calçadas de pedra do reino vão sendo substituídas por cimento, e o cimento vai se quebrando: já não servem para se passar. A sujeira está por toda parte — e também os dejetos do homem, virado bicho. Correm dos sobrados lágrimas e chorume.

É impossível que a cidade esteja sem prefeito. Que não tenha serviços públicos, que haja mesmo intenção de abandoná-la. Mas isso pode se prolongar. A cidade histórica não esteve nos debates eleitorais. Ela não sensibiliza. Usam sua beleza para se vangloriarem, mas não falam de soluções para salvar e preservar São Luís.

Quando Kátia Bogéa foi responsável pelo patrimônio maranhense, fez uma administração brilhante, e agora, no IPHAN, é uma luz. Ela está com a mão estendida para a cidade.

Não podemos ficar apenas na propaganda de que o governo ajuda a cidade. Asfaltar é bom, mas os problemas estruturantes, que são mais complexos, precisam ser a prioridade. É hora de os candidatos dizerem o que vão fazer pela cidade.

O que não se pode é deixar que os invernos liquidem os sobradões, e que São Luís perca o título de patrimônio da humanidade por estar morta.

José Sarney

 

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