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São Luís, meu amor

José Sarney

Cidade da minha mocidade, da minha adolescência, da minha maturidade, da minha velhice, da minha eternidade, dos meus sonhos, das minhas paixões, das minhas flores abertas para a alegria e murchas para as tristezas, do meu destino.

Graça de Deus estar contigo nestes 400 Anos para celebrar, para relembrar as várias cidades de São Luís que conheci e que desapareceram comigo nos diversos tempos da minha vida. A primeira chegada, aos cinco anos, na canoa de remo na Rampa Campos Melo, saltando da Filha de São Bento, de pano azul mágico que até hoje brilha na minha lembrança, do Mestre Braulino, deslumbrado com a luz elétrica, com o bonde, com os sobrados. Onde está? Morreu e somente sobrevive dentro de mim. A outra São Luís que quase não vi chegando de noite no trem puxado pela locomotiva 29, que no embalo dos trilhos nos adormecia, na velha estação que ainda resiste, como um fantasma solitário dos meus 10 anos, para iniciar este caminho que me trouxe até aqui. A São Luís da Praça Gonçalves Dias, Tribuzi, Lucy Teixeira, Floriano, Bello Parga, noite alta e nós recitando “Se se morre de amor”, “Enfim de te vejo! – enfim posso/ Curvado a teus pés, dizer-te/ Que não cessei de querer-te/ Pesar de quando sofri.” O romantismo dos jovens daquele tempo já misturados com Fernando Pessoa e José Régio. A São Luís do Liceu das moças de saia azul e blusa branca, Regina, Maria da Graça Jorge, Waltelina, Dayse, Djanira, Elimar e de tantas amigas; Cabral, Silvio, Oldemar, Carlos Alberto, Chafi e dos mestres Mata Roma, Nascimento Morais, padre Newton, professora Maria de Jesus, Nina e todos. Ah! Liceu do meu tempo, uma saudade que dói. Os meus primeiros versos, os meus primeiros discursos, minha vida do Imparcial, Sabóia, Emanuel, Bandeira, Azoubel… até o mar grande em que naveguei o meu destino, mas sempre teu apaixonado, uma devoção de todo dia.

Ver-te agora, rica, bela, diferente, espraiada, dos arranha-céus e do primeiro milhão de habitantes. Eu que te amei velha, renovo o amor na vontade de voltar no tempo e ficar contigo na eternidade entre cantigas e sonhos de infância e possuir-te, despojada, nua e bela, nas carícias de um amor de paixões, como se fosse a primeira noite, entre cheiro de jasmins e estrelas brancas que se abrem nas madrugadas.

Andar em tuas ruas desertas, sentar nas escadas dos teus casarões, procurar desvendar teus mistérios, teus sortilégios e fugir dos teus fantasmas.

Molhar-me em tuas tempestades, sentir teus ventos que vêm do mar, tuas praias, tuas árvores, teu povo, gente que tem gosto de cravo e canela, mulatas, morenas, brancas, índias, pretas, cafusas e homens de faca e picardia, o gingado macio de quem sabe ser bom e bravo.

Quero voltar a te ver, reconhecer teus caminhos. Começar pelo Largo do Carmo, descer o Beco do Quebra Costas, andar pela Praia Grande, ver as velas coloridas de nossos veleiros, ir ao Desterro, ao Mercado, à fonte do Ribeirão e à das Pedras, às ruas que são poemas: do Sol, da Alegria, da Saudade, do Alecrim, da Misericórdia, das Hortas, da Paz, da Palma, do Apicum, das Mercês, da Madre de Deus, da Estrela, do Giz, do João do Vale, das Crioulas, dos Remédios, ao Canto da Viração, visitar tuas igrejas, sentir a alma da cidade no reboliço dos andantes, a zoada, o tumulto dos automóveis, ir às praias, comer coisas que se serve no céu em dias de glória, o arroz de cuxá, as caldeiradas, cozinha dos mariscos, portuguesa, árabe, do sertão e as invenções dos beberes e comeres do Maranhão. Beber tiquira e guaraná Jesus, tomar os sucos e os sorvetes de bacuri, cupu, juçara, cajazinho, refrescar com água de coco, picolé de coco, comer sapoti, abricó, bananas de S. Tomé e, à noite, encontrar a cidade bela, calada, sensual. É aí que ela se revela, é possível ver fantasmas de moças nas janelas, carruagens que andam pela eternidade e, chegando na Beira-Mar, ver uma luz de longe: é capaz de ser o navio de dom Sebastião, rei de Portugal, que desapareceu nas areais de Alcácer-Quibir e veio encantar-se nos mares e lençóis do Maranhão.

A cidade cheira a poesia e cravo, com suas ladeiras de histórias e lendas, que falam de heróis, santos e punhais. Da luta das palavras, de poetas jogando lenços e sonetos nas lajes frias de cantaria, além da paixão sem fronteiras das lutas políticas remoendo pelas praças, sagas em que mulheres escreviam ordens em cartas de sangue. Pois não é o carro de dona Ana Jansen que assombra as madrugadas desertas destas ladeiras? E a Baronesa de Grajaú, toda de preto, acompanhada de damas nobres, sobe as escadas, rangendo as tábuas, que repetem o gemido dos escravos enforcados?

Aqui, o mistério, a história e a lenda dançam juntos. Cidade que dizia Vieira estar no Velho Testamento de Isaias, cidade de heróis expulsando os holandeses, de Bequimão enforcado pelo primeiro grito de liberdade do Brasil, o negro Cosme, também enforcado, lutando pela liberdade dos escravos. Cidade onde passaram todos os grandes nomes da história do Brasil, de Caxias e Tamandaré, até o mártir Malagrida e a voz de fogo do padre Vieira que pode ser ouvida em Santo Antônio e no Convento das Mercês.

Cidade nunca dominada por ninguém, livre e bela, com nossa Senhora da Vitória, do lado de fora, na Sé, mostrando a todos que é ela o símbolo e a glória de um povo bom, generoso e cheio de ternura.

O que posso te dar nesta data? A renovação do amor de sempre. Milhões de flores, milênios de beijos e no futuro infinito ser um grão de pó de teu solo numa paixão de vulcões.

 

 

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