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Ramos e os raios

O Domingo de Ramos nos lembra a infância, quando as palmas — que os meninos colhíamos nas palmeiras — usadas na procissão eram guardadas nos oratórios de nossas casas. Celebravam Jesus Cristo, e, queimadas durante as trovoadas, nos livravam dos raios.

Os raios hoje são de outro tipo. Atingem as pessoas e as famílias com a mais sofrida situação, que é a incapacidade de ganhar o sustento, o pão nosso de cada dia.

Durante o meu governo o desemprego alcançou os mais baixos níveis de nossa história. O pleno emprego fortaleceu os sindicatos, permitiu a consolidação das confederações sindicais, que eu legalizei. Os partidos, especialmente o PT, incorporaram os trabalhadores como grande força eleitoral.

Isso tornou possível a presença — quase vitoriosa — de Lula nas eleições de 1989. Era o centenário da República, e a possibilidade da chegada de um operário ao Poder foi um marco fundamental em sua evolução.

A República foi criada pelos militares. O primeiro momento foi deles. Depois os advogados civis, que os haviam ajudado e tinham lançado a ideia republicana, assumiram o comando. Logo, com o Marechal Hermes da Fonseca, voltaram os militares e suas intervenções salvacionistas, expressas em 1922 e 1924. Em 1930 o salvacionismo se exauriu, quando os tenentes foram os responsáveis pelos cavalos gaúchos amarrados no obelisco diante do Senado, no Rio de Janeiro. Getúlio trouxe o caudilhismo e o continuísmo do mando, regra implantada no Rio Grande do Sul por Castilho e Borges de Medeiros. O trabalhismo lançado por Lindolfo Collor em sua breve passagem pelo governo foi amaciado pela Carta del Lavoro fascista e sobretudo pelo pelego — na fronteira a pele que isola o cavaleiro da sela.

O interregno democrático de 1946, o militar de 1964 não alteraram substancialmente a situação do trabalhador. A Constituição de 1988 também não. Duas precariedades coexistem até hoje: de um lado a instabilidade de orientação de nossa economia, ora voltada para a industrialização, ora para a agricultura, ora para o serviço, ora buscando o mercado interno, ora o externo — e nesse balanço incapaz de criar uma força de trabalho sólida. Por outro lado, um terço dos nossos 90 milhões de trabalhadores vive na informalidade, isto é, na total insegurança. E doze milhões procuram, pelas ruas, o emprego que não existe.

No Domingo de Ramos esperávamos a água benta aspergida pelos padres em torno das igrejas. Ela caía sobre nós como renovação.

Mas esta semana o que caiu foi o raio do gás Sarin, covardemente lançado sobre os que sobrevivem nas cidades destroçadas da Síria. Não há dúvida que é mais um crime de guerra no crime que é a guerra. A guerra não é solução. E aí só nos resta esperar que a reação de Trump, primária e radical, não nos leve à conflagração total. Afinal começou, este ano, remando contra a corrente de décadas de controle, a corrida do rearmamento nuclear. Pode ser o fim das guerras — e da vida sobre a face da Terra.

Todo dia, mas especialmente nesse Domingo de Ramos, peçamos: Senhor, dai-nos a Paz!

 

José Sarney

 

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