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O Processo da Baronesa de Grajaú

O processo da Baronesa de Grajaú, que trata da acusação de que dona Ana Rosa Viana Ribeiro — esposa do doutor Carlos Fernando Ribeiro, chefe do Partido Liberal no Maranhão, que depois seria escolhido por dom Pedro II Barão de Grajaú —, teria, por constantes sevícias e maus-tratos, morto um escravo seu, um menino de 8 anos, de nome Inocêncio, ficou famoso.

O crime teve grande repercussão na cidade e envolveu médicos de grande renome, como o dr. Santos Jacynto, que assinou o atestado de óbito dizendo ter o menino morrido de hipoemia intertropical, o que significa opilação, vermes. Acontece que o cadáver apresentava sinais marcantes de pancadas, equimoses, feridas, derrame craneano, enfim, todas as evidências de ter sofrido o que os escravos sofriam: tortura, sevícias, surras.

Eu era oficial judiciário, trabalhava no Tribunal de Justiça, na Rua Afonso Pena, esquina com a Rua Direita. Tinha 19 anos. O Governo Paulo Ramos construíra o novo Tribunal na Praça Pedro II. Começou a mudança e o presidente do Tribunal, desembargador Joaquim Santos, determinou que os processos velhos, que tivessem mais de 30 anos, podiam ser jogados fora. A mudança levou vários meses. Não tínhamos muitos caminhões e o transporte era feito por carroças, que se enfileiravam na Rua Afonso Pena para carregar as coisas. Fui designado para ajudar. Numa das carroças eu, já intelectual e jornalista, em breve membro do Instituto Histórico (sucedendo o professor e grande homem de letras Antônio Lopes), comecei a tentar salvar alguns daqueles papéis que eu julgava um crime irem terminar na maré. Encontrei o processo da Baronesa. Eu conhecia o caso. Exultei.

Salvei outros processos que doei a Arnaldo Ferreira. Não sei se constam da sua grande biblioteca, hoje pertencente ao Senac. Na faculdade mostrei o da Baronesa ao colega Walbert Pinheiro, que com ele permaneceu uns dias. E o guardei na esperança de escrever um romance com aquele repositório de informações.

O tempo passou. O processo sempre comigo. Uma noite, em Brasília, Josué veio com Yvone jantar em meu apartamento. Disse-lhe que tinha o processo da Baronesa de Grajaú. Seus olhos brilharam. Quis o documento. Estabeleci uma condição: que escrevesse um romance sobre a história. Trato feito, dei-lhe o processo. Josué, com ele, escreveu sua maior obra, Os Tambores de São Luís, o romance da escravidão. Escrito com um século de atraso, mas preenchendo uma lacuna. Um livro monumental.

Anos depois, numa solenidade no Museu Histórico do Maranhão, Josué, em minha presença, fazendo referência a essa história, doou ao Museu o famoso manuscrito. O tempo passou, e perdi de vista o processo.

Há alguns anos o historiador José Eulálio Figueiredo de Almeida escreveu um livro sobre ele, obra muito bem construída, escrita numa linguagem moderna, sem concessões ao barroco, e abrangendo todos os ângulos desse rumoroso caso, que passou a ser um marco na historiografia sobre o século XIX no Maranhão, uma visão ampla da vida cotidiana daquele tempo, com incursões na medicina e na consciência do povo da mancha hedionda da escravidão.

As duas visões, a de Josué e a do professor José Eulálio, são os melhores testemunhos dos preconceitos e costumes da sociedade maranhense da época. Quem escreverá o retrato da nossa?

 

José Sarney

 

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