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Por quem gritam os biguás?

Fala-se da ecologia com a mesma magia como no passado se falava de Deus e da criação. A visão vertical da Terra que nos foi dada pelas naves e instrumentos de ótica lançados ao espaço nos forneceu a imagem real que o pensamento humano formulava e não via: somos um pequeno nicho cósmico com recursos limitados e sujeitos às restrições do seu uso. Essa projeção passou a ser base de algumas verdades filosóficas. Todos sabemos que a Terra está doente e que, se não cuidarmos dela, acabam as condições de existir vida e ela transformar-se-á num planeta morto como tantos que existem no espaço.

Richard Falk, no seu livro “This Endangered Planet”, nos adverte sobre a contradição que vivemos de que “quanto mais o mundo se desenvolve, mais a situação da Terra piora”. E o homem, para lembrar Lévi-Strauss, é o grande poluidor.

Se tivéssemos que tirar um retrato da dor, do sofrimento, da denúncia, do desespero, ninguém tiraria um mais exato do que a foto daquele biguá negro, de bico aberto, olhos esbugalhados, asas encharcadas de óleo, gritando que não podia mais comer, voar, libertar-se do chão no prazer da vida.

O seu grito, que comoveu o Brasil e cuja imagem publicada foi passada ao mundo inteiro, não era só por ele, mas por todas as espécies que estão ameaçadas. Pelo falcão-de-peito-vermelho do Amapá, pelo papagaio-cara-roxa de São Paulo, pela ararajuba do Maranhão, pela saíra-apunhalada do Espírito Santo, pelo sabiá-pimenta das Alagoas, pela araponga de todo o Nordeste, pelas tartarugas, pelas baleias, pelo cervo do Pantanal, pelo tatuapara, pelo mico-leão, pela preguiça, pelo peixe-boi que é cruelmente morto de pau e faca. O grito do biguá é também pelas florestas de mogno que estão sendo derrubadas, pelas queimadas, pelos rios, pelos céus.

Nada mais essencial à vida do que a água e o ar. São eles que estão sendo contaminados pelos homens numa proporção demolidora. O maior problema do século 21 será o da água doce. Na Europa, já é dramático. Aqui, os inseticidas, os pesticidas, os detergentes, as indústrias poluidoras, o lixo, o mercúrio, o desmatamento e tudo o mais nos faz pensar na urgente necessidade de salvar nossos rios que estão morrendo. Em relação ao ar, não é possível nem dimensionar o que ocorre. Os combustíveis fósseis, acumulados durante centenas de milhões de anos, estão sendo convertidos em gases e cinzas, resultando no aquecimento da atmosfera. O que irá acontecer? O efeito estufa, o buraco de ozônio e o degelo da calota polar nos indicam um desastre incompatível com a vida, nos moldes em que a conhecemos hoje.

É inacreditável que até hoje milhões e milhões de toneladas de petróleo transitem nos mares e diariamente se registre, aqui ou ali, um acidente de pequena ou grande proporção.

A mancha negra dessa catástrofe chegou à baía de Guanabara por um oleoduto da Petrobras. Não é culpa somente dela. É culpa de todos nós, que achamos ser a causa ambiental somente tema do ideário de jovens e ambientalistas.

Os biguás estão gritando por nós, que estamos matando as águas, e as aves marinhas que vivem delas lançam ao infinito a sua dor eterna.

José Sarney

(Publicado na edição de 11 de agosto do Diário do Amapá)

 

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