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Os Prefeitos

Boa e oportuna a iniciativa da Academia Maranhense de Letras de relembrar a figura do prefeito Haroldo Tavares. Ele trazia a carga do ADN do seu pai, Jayme Tavares — que também foi grande prefeito de São Luís, concluindo a avenida Beira Mar —, sogro de governador Pedro Neiva de Santana e também pai de Eney Santana — mulher de grandes qualidades, que muito ajudou o Estado e o esposo, sendo dela a grande iniciativa da primeira reforma do Teatro Arthur Azevedo, depois seguida por Edison Lobão, que fez a grande obra de transformar o prédio num dos melhores e mais modernos teatros do Brasil.

O gesto da Academia no fundo destina-se, num momento de eleição para prefeito, a levantar uma discussão sobre São Luís e a necessidade de um debate sério sobre os problemas que afligem a cidade. Haroldo era dotado de notável talento e imaginação, que pensava sempre no futuro e, assim, valorizava o planejamento como base de sua ação administrativa. Antes dele Vicente Fialho, que foi prefeito por 10 meses, fizera um pequeno Plano Diretor para São Luís, onde determinava as linhas viárias e uma espécie de anel periférico, que Haroldo atualizou, ampliou e aonde incluiu ideias novas.

Depois desses prefeitos que tinham visão e capacidade de gestão, a cidade entrou numa hibernação, inchando com grandes bairros, que hoje são problemas sérios, sem assistência e com ausência dos mais rudimentares aparatos — esgoto, água, educação e saúde. Surgiram favelas e palafitas, para complicar mais as dificuldades, pois estas não tinham urbanização e eram vulneráveis aos vendedores de drogas e à violência. Isto é uma tragédia urbana.

Ainda bem que houve a ponte de São Francisco, um grande pulmão de respiração da capital, evitando a favelização do Centro Histórico e abrindo o outro lado do Anil para que ali se instalasse uma outra cidade, moderna, acolhendo de preferência as classes que tinham possibilidade de acesso a novas residências. Daí nasceu um boom imobiliário, que assegurou não só a abertura das praias ao povo como empregos à mão de obra não qualificada, abundante no Maranhão. Foi um bolsão de riqueza que possibilitou uma era de investimentos e progresso.

Agora renova-se o prefeito. E ao que se verifica não apareceu até agora uma discussão sobre o futuro da cidade e apenas chavões demagógicos de críticas, sem soluções. É o que a definição de demagogia consagra: soluções insolúveis para problemas difíceis.

Cobra-se planejamento objetivo, plano de gestão e fim do afilhadismo que tem caracterizado muitas administrações.

Seria injusto, também, se não lembrássemos o Dr. Ruy Mesquita, que foi um bom prefeito e fez também um Plano Diretor para a cidade, que infelizmente não pode realizar. Não esqueçamos de Roberto Macieira, que iniciou a Lagoa da Jansen, e Mauro Fecury, que construiu ruas e muito trabalhou nos bairros, sem descuidar do lixo e responsável pela época em que São Luís esteve mais limpa e bem tratada.

Ao falar de prefeito lembro-me do meu professor Trayahu Moreira, desembargador nascido no Brejo e que contava histórias pitorescas de sua terra, como um pasquim que saiu, pregado nas casas, censurando um então prefeito:

Diz o Brejo todo / dessa terra malfadada /que anda muito abusado / com essa sua gestão. / No entanto a sua loja / repleta está de fazendas / sedas, cambraias, rendas/ e na rua é um grande matagal / que vive desafiando a foice prefeitural! / E você no gabinete / exclama bem satisfeito / como é bom se ser prefeito!”

 

José Sarney

 

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