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Os partidos no Maranhão

No Império, o Brasil se dividia entre o Partido Conservador e o Liberal, saquaremas e luzias — embora se afirmasse que nada mais parecido com um saquarema que um luzia no poder. No Maranhão não era diferente, os dois se alternavam e dividiam o poder. Como havia partidos estaduais, sem a obrigação de que se organizassem em todo o País, havia, entretanto, muitos outros, com nomes pitorescos.

João Francisco Lisboa comentava: “Corria o ano de 184…” “nossos partidos iam buscar suas pretendidas tendências e princípios nos ciúmes de localidades, nas disposições antimetropolitanas, na influência deste ou daquele chefe, desta ou daquela família, e eis aí a arrebentar de cada clube ou coluna de jornal, como do cérebro de júpiter, armados de ponto em branco, o partido liberal, o conservador, o centralizador, o nortista, o sulista, o provincialista, o federalista, o nacional, o antilusitano, o antibaiano, o republicano, o democrático, o monarquista, o constitucional, o ordeiro, o desorganizador, o anarquista, o absolutista, o grupo Santiago, o grupo Pantaleão, os Afranistas, os Bavistas, a camarilha, a cabilda e o pugilo.”

Ainda não chegavam ao número de hoje, quando os partidos chegam a 35, fora outro tanto que aguarda registro.

As aves do céu, os peixes do mar, os bichos do mato, as mais imundas alimárias e sevandijas já não podem dar nomes que bastem a designá-los, a eles e a seus periódicos (hoje são mais ágeis, diríamos seus blogs), os cagambás, jaburus, bacuraus, morossocas, papistas, sururús, guaribas e catingueiros.”

Em que diferiam uns e outros? Como definir a preferência? “Os bacuraus, poucos mas ilustrados, segundo eles próprios diziam, se destacaram dos Cangambás, e fizeram causa comum com os mossorocas, com quem pouco tempo antes tinham andado em guerra acessa; e os jaburus, que de há muito não davam sinais de vida, a ponto de se matéria controversa se eles existiam ou não, fizeram por aqueles tempos ato de ressurreição, e arrebanharam partidistas, novos pela maior parte, ou conhecidos por haverem figurado sob diversos nomes e bandeiras, e que então asseveravam haver sido sempre bons e fiéis jaburus, do verdadeiro e puros sangue jaburu que circulava nas veias de SS. EE. os senhores ministros de estado. Mas os cangambás, que pouco valiam antes da cisão—bacurau, é certo que quase nada com ela perderam, porque também dos jaburus e morossocas se destacou alguma gente à formiga e em pequenos grupos, atraídos pelas promessas costumadas de empregos, patentes e candidaturas, que são o apanágio dos partidos governistas, e fatigados ao mesmo tempo do mister pouco lucrativo de oposicionistas.”

Na República, vieram os federalistas, de Benedito Leite, e os republicanos, de Urbano Santos. Quando eu cheguei a São Luís, ainda encontrei um nome pitoresco. Os partidários de Magalhães de Almeida eram chamados magalhãsistas, mas os de Marcelino Machado eram os pés-rapados. Hoje, graças a Deus, a situação é outra. Nada de dar apelidos aos partidários de um ou de outro, pois a imaginação não chega a tanto.

 

José Sarney

 

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