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O significado do Natal

Certa vez passei o Natal em Lisboa, em casa de Odylo Costa, filho, que é nome de rua, com muita justiça, em nossa cidade de São Luís. Estava conosco, entre vários intelectuais, o António Alçada Baptista, grande escritor português, autor de um livro clássico, Peregrinação Interior. Depois da consoada – assim se chama a ceia de Natal em Portugal –, entre uma e outra garrafa de Colares – que era o vinho preferido de Eça de Queiroz – começou uma conversa sobre o significado do Natal: Deus assumindo a condição humana, aceitando viver todas as vicissitudes do homem, até o extremo da morte em cruz.

O Alçada interrompeu a conversa e disse que o Natal, como a Paixão, é um mistério, e, como mistério, é mistério, não se pode tentar desvendar ou compreender, deve-se apenas aceitar, confirmando nossa fé.

E acrescentou: cada um de nós que vive é um vitorioso, pois em cada relação entre um homem e uma mulher existem centenas de milhões de espermatozoides competindo, e apenas um é escolhido. Vencemos esses milhões pela vontade de Deus, e recebemos a graça de viver. Todos os outros pereceram. Mas o Menino Jesus fugiu a essa lei e o Anjo apareceu a Maria para comunica-la que seria a Escolhida. Nisso está o mistério.

Eu acrescentei, também bom cristão, que a vontade de Deus é que não estejamos sós na face da Terra. Em todos os momentos de nossa vida sabemos que existe Deus, que a Ele podemos recorrer e pedir socorro, e assim temos uma profunda e inabalável sensação de segurança. Nele temos apoio e salvação.

Rompemos o Natal sabendo que Deus nos dera aquela felicidade de, entre amigos, em família, na graça da vida, ter Sua presença a nosso lado. Não o Deus do Antigo Testamento, violento e ameaçador, mas Jesus Cristo, bom, alegre, generoso, que nos ama e nos faz companhia.

Lembro dos meus muitos Natais – os de minha infância, os de minha juventude, os de minha maturidade – com a mesma fé ardente dos tempos em que, pela mão de minha Mãe, íamos à igreja para assistir à Missa de Galo, com os seus foguetes de taboca, os sinos em aleluia, o bolo de tapioca, o chocolate grosso e seu gosto que não passa.

Aqui em São Luís, as ruas enfeitadas com pobreza e simplicidade, as luzes da Ullen morrendo nos postes de ferro, os bondes cheios, as pessoas indo para as igrejas, as chuvas de dezembro enfeitando as noites e anunciando bom inverno.

A mesa cheia, minha Avó, meu Pai, meus irmãos, meus primos, todos unidos na felicidade da vida simples e sem problemas.

As cantigas das pastorinhas e o Papai Noel, quase mendigo, entre lantejoulas e velas, sem o brilho dos dias de hoje. O presépio com arroz plantado no dia de Nossa Senhora da Conceição, 8 de dezembro, recém-brotado, e, no estábulo de Belém, com os pastores em adoração, a Virgem Maria e São José; e ela, Mãe de Deus, ajoelhada, olhando o olhar do Menino.

O Natal de hoje, com bisnetos, netos, filhos e amigos – muitos – e a alegria de poder louvar a Deus e agradecer por Sua vinda à nossa Terra, como um de nós, para nos salvar.

O Natal é sempre o que foi naquela noite santa: uma festa da família, esperança com a chegada de um menino, no cumprimento da promessa – “porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros” (Isaias 9, 6) – com a chegada do Menino Jesus, nosso Deus.

Ele que depois nos ensinou que sua presença se realiza em um só gesto: amor. Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo; perdoar aos inimigos, como dizemos ao repetir a oração que Ele nos ensinou – e eu os perdoo. Paz na Terra aos homens de Boa Vontade.

Feliz Natal a todos, meus irmãos, meus amigos, e também a todos os homens, pois todos somos filhos de Deus.

José Sarney

 

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