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O pau que bate em Chico

Tinha razão o Senador Gomes de Castro, a quem Rui Barbosa considerava um dos dez maiores oradores do Parlamento, quando o projeto de lei dos sexagenários do Ministério do Conselheiro Dantas, apresentado por Rodolfo Dantas, seu filho, e mais 28 Deputados, já que mexia na lei de meios — deu um quiproquó muito grande, uma vez que o País estava totalmente dominado pela campanha da abolição, e conservadores, e liberais estavam com a sensibilidade à flor da pele —, ele, Gomes de Castro, disse que, no Brasil, havia um gênio perverso, anjo mau, grande e preto, que, quando o céu estava claro e sem nuvens, aparecia e escurecia tudo, criando tempestades e ventos.

Era o caso daquele tempo em que o Império vivia a mobilização da consciência nacional contra essa mancha negra de nossa História, a escravidão.

Quando se dissera que o Imperador insinuara ao Marquês de Olinda que fizesse uma referência ao “elemento servil” numa fala do trono, dizia ainda Gomes de Castro, isso fora motivo para Saraiva fazer um desmentido enfático. Em 1884 rapidamente foi votada uma moção de desconfiança do Gabinete Dantas, toldando o ambiente político e o Parlamento, com extensão para o País, que começou a viver uma grande agitação.

Não sei se estou me repetindo ao citar esse fato porque, depois de escrever durante toda a minha vida, que já passa dos oitenta, escrevi tanta coisa que não consigo lembrar se já me referi a uma coisa ou não.

O fato é que lembrei do Gomes de Castro, quando, no País, atualmente, depois da derrubada pela Câmara dos Deputados da denúncia contra o Presidente Temer, da baixa da inflação e dos juros, da retomada do crescimento com o fim da recessão, todos julgavam que íamos atravessar um período sem turbulências políticas.

Mas eis que o Procurador-Geral da República, Dr. Rodrigo Janot, exímio citador do Google, de onde extrai versos de Gregório de Matos e frases de Fernando Pessoa, descobriu uma mata de bambu e começou a deles fazer flechas, que disparou para todo lado.

Ficamos mesmo com a impressão de que a Justiça não tinha mais o símbolo da balança e do equilíbrio para julgar, e sim um arco com flechas de bambu, que ele ameaçou atirar até o último dia de seu mandato, que expira a 17 deste mês de setembro.

Só que uma delas teve o efeito bumerangue: voltou-se contra ele próprio, com a verborragia do Sr. Joesley Batista, que, agredindo o português, flechou também de um lado para outro. E com uma dessas flechas o Procurador Miller acusou, justamente, o flecheiro de ser o comprovante da tese do Ministério Público, levada ao Supremo, do “domínio do fato”, isto é, de que quem está em cima é responsável por tudo o que fazem os que estão embaixo.

O Procurador Miller, braço direito do Procurador-Geral da República, que pediu demissão do Ministério Público para trabalhar na firma ligada à J&F — JBS, Friboi —, confirmou a tese, também levantada pelo Dr. Rodrigo Janot, de que pau que bate em Chico também bate em Francisco.

Eis que o Brasil todo está envolvido nessa confusão geral, como dizia Machado de Assis, atualizada agora por flechas e tesouros escondidos, como este que a Polícia Federal descobriu na Bahia, de R$ 51 milhões e US$ 2 milhões.

É o anjo negro de que falava Gomes de Castro, que está aí escondido, sempre aparecendo nos céus do Brasil.

José Sarney

 

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