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O Olhar Ausente

O Brasil ficou chocado quando viu, em tempo real, o assassinato de um pobre vendedor de uma estação de metrô, pisoteado, chutado, espancado por dois jovens formados por esta sociedade de drogas e alcoolismo que está tornando o cotidiano da violência ser aceito como normal.

E o pior de tudo — que causa espanto e perplexidade — é aquilo que a própria mídia custou a constatar: o olhar ausente dos assistentes daquela brutalidade, que passavam, alheios ao que acontecia, e viam e não viam, miravam e não se comoviam, ausente neles o sentimento da solidariedade e compaixão. Mostravam que estamos perdendo a capacidade de nos indignar com a crueldade, e ninguém se comove com o sofrimento de ninguém.

Para completar o horror vem a notícia do brutal assassinato de mais de sessenta detentos na penitenciária de Manaus, numa luta de rotina entre facções antagônicas, comum nos presídios, como na Idade da Pedra, quando o homem era um bicho antropofágico. Bicho que ainda é capaz das degolas que parecem ter sido o instrumento utilizado na maioria das mortes.

Não podemos ficar insensíveis a toda sorte de atrocidade, brutalidade e desumanidade, temos de exprimir nossa revolta e condenação à barbárie.

Nós, em escala menor, vivemos este cenário na Penitenciária de Pedrinhas, que encheu o Maranhão de vergonha. Eu fui testemunha das lágrimas e da comoção da Governadora de então, Roseana, com aqueles episódios que tinham, como se constatou, uma conotação política.

Eu me sinto agredido quando vejo aquela paisagem de andrajos estendidos nas grades dos presídios, como um anúncio da desgraça e do infortúnio daqueles que ali estão.

Mas, a sequência da violência não para. Como numa reação em cadeia, Roraima amanheceu nesta sexta-feira com 33 cadáveres no pátio de sua penitenciária. Para mais chocar aqueles que ainda tem alma, para saber que viver é uma graça de Deus e que a própria humanidade esquece o valor da vida, o que é mais cruel: além dos trinta que foram vítimas de degola, vários tiveram seu coração arrancado.

E o Brasil não tem guerra, não tem terrorismo, não tem confrontação armada de religião, não tem litígio de fronteira, nem guerra de raças, mas pensamos estar em Mossul ou Alepo — e os homicídios no Brasil tem a ordem de grandeza, 50 mil por ano, desses lugares em guerra e sob terrorismo.

Só nos resta exclamar, diante dessa realidade, aquela expressão desesperada, a única a que recorrer em horas como estas:

Valha-nos Deus!

 

José Sarney

 

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