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O gaiolão que não rima com Maranhão

Desceu sobre o nosso Estado uma vergonha nacional.

A visão que foi projetada foi cruel. E ninguém acreditava que, no Brasil, pudéssemos ter uma reminiscência das formas de tortura da Idade Média, onde eram raras as cadeias, mas em geral as pessoas ficavam amarradas em esteios, cavernas e masmorras — ou penduradas em gaiolas. Era uma maneira de se chegar à aplicação das penas conhecidas, que eram marcas infamantes, mutilações e mortes cruel. A forma da morta era escolhida de maneira que fosse lenta — por isso a “modernidade” da guilhotina, que era rápida.

Não sei se, na União Soviética, que morreu sem deixar saudades, mas o saldo de mais de trinta milhões de mortos, o Stalin do comunismo de Estado construía gaiolões.

A verdade é que Barra do Corda, em nosso Estado, não merecia notoriedade nacional por esse motivo: ter sido descoberto um pequeno campo de concentração para punir pessoas, expostas à degradação, uma vez que era um espaço cercado de grades, de alto abaixo, um quadrado acimentado, em que um ser humano, sem água e sem lugar para fazer suas necessidades, fica na degradação humilhante de acocorar-se, esparramar-se no chão, ou ficar em pé, de qualquer forma exposto ao sol durante todo o dia, podendo sofrer queimaduras, feridas e sequelas externas e internas.

O homem, através dos tempos, chegou a um momento em que a insensibilidade tomou conta dos corações.

Mas ninguém deixou de pungir-se com a cena do gaiolão de Barra do Corda, em que Francisco Lima e Silva, exposto a essas condições tão desumanas, só teve o alívio da morte.

O Ministério Público e a Defensoria daquele Município, desde o mês de agosto, pediam que a monstruosidade fosse interditada. O juiz negou a inicial. Mas eles tiveram o cuidado de distribuir a denúncia da crueldade ali existente a todas as entidades nacionais que vigiam os direitos humanos.

O Governo do Estado lavou as mãos, e agora, diante da tragédia, diz que a culpa não é dele, mas de seus adversários. Essa fuga já não existe mais, pois, há três anos, estamos mergulhados nessa insensibilidade, que chegou ao máximo com o de que agora o País toma conhecimento.

Nada se fez. Nada se está fazendo. E acredito que nada se fará. Por muito menos, Roseana sofreu uma campanha política comandada pelos governantes atuais, que a responsabilizavam por uma disputa, também cruel, entre facções de bandidos.

Sobre essa campanha, que tinha objetivos eleitorais, um dia vão ser esclarecidas as suspeitas que pesam de terem sido promovidas com intuito político, que finalmente deu resultados.

O Dr. Janot ameaçou pedir intervenção no Estado, denunciar à ONU, na Comissão de Direitos Humanos, e para cá mandou uma comissão de procuradores, cuja função era apenas atingir o objetivo político.

Quando assumi o Governo do Maranhão, em 1966, ainda tínhamos, em nosso Estado, o famoso tronco da Idade Média, que foi usado contra os escravos e continuou depois da abolição, com os prisioneiros a ele ficando acorrentados e expostos à execração pública. Fui à televisão, mostrei as correntes e acabei com esse tipo milenar de privação de liberdade e preparação para a morte.

Agora me parece que o gaiolão é um tronco moderno, feito de cimento e vergalhões de ferro.

No tempo da escravatura, diziam que, para os pretos, só tinham três “P”: pano, pão, porrada. Essa é a lei que está voltando em nosso Estado.

No momento em que toda a Nação pede a manutenção da lei do trabalho escravo, nós estamos vendo aqui não o trabalho escravo, mas a execução com crueldade de um comerciante, que paga com sua vida o grito de todos nós pedindo que esse tipo de prisão e outros cruéis, que caracterizam o sistema prisional brasileiro, acabem para sempre.

O maranhense é um povo pacífico, ordeiro, generoso e não aceita que gaiolão rime com Maranhão.

José Sarney

 

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