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O Diabo voltou

O Padre Vieira afirmava que o Diabo era o dono do mundo.

Para isso invocava as palavras do próprio Cristo, quando foi tentado por ele no deserto da Judeia, depois de batizado por João Batista e ter jejuado durante quarenta dias. O “maligno” como se dizia nos tempos antigos, para nem pronunciar o seu nome, teve a ousadia de leva-lo às alturas e de lá mostrar-lhe todos os reinos do mundo e dizer-lhe: “Tudo isso será teu, se me adorares.” Diz Vieira que, se o Diabo lhe disse isso, é porque o mundo é dele, senão não o ofereceria ao Senhor.

Com o desenvolvimento da humanidade, da ciência e do pensamento, o homem não conseguiu matar a Deus, mas o Diabo foi morto e desapareceu. Na minha infância eu ainda tinha medo do Diabo. Mas ele desaparecera.

Não é que agora, depois de ver as atrocidades inimagináveis que estão acontecendo, não encontro justificativa para nada e sou levado a temer o Diabo da minha infância e a constatar que ele voltou.

Ele está agora entrando na cabeça do homem.

Não mais o homem primitivo, o cro-magnon, que matava sem saber a quem matava, dizimava seus irmãos e mulheres dominado pela violência do instinto da sobrevivência; mas o homem moderno, este que foi à Lua, desvenda os ínfimos mistérios de divisão dos genomas, quem mostra uma cabeça tão primitiva quando a dos neandertais, quem pensa e programa a morte de crianças, tocando fogo nelas, numa creche de Janaúba e em si mesmo.

Nada mais puro e humano do que uma creche — nome de origem francesa que significa o presépio do Menino Jesus —, que recebe crianças enquanto as mães trabalham e afastam-se por algumas horas do dia do seu amor em busca de sustento, e onde aprendem, brincando, a se relacionar umas com as outras, na beleza da inocência. De repente são atingidas por inflamáveis de um louco ou alucinado que as incendeia. Quase vou as lágrimas quando ouvi de uma sobrevivente de quatro anos, quando perguntada por seu nome, a resposta apavorada: Fogo!

Não culpemos nosso País, como hoje está moda fazer, como se só aqui acontecesse coisas impossíveis. Vejamos um país rico, líder mundial, esbanjando consumo. Jovens, no desfrute da alegria, no gosto da vida, em busca da felicidade estimulada pelos sons das músicas de que gostam, da dança libertando o corpo de suas posturas naturais, em pleno êxtase, numa cidade de luzes e brilhos, cores e maravilhas, são surpreendidas pela morte trazida por outro alucinado, que planeja tudo e, durante dias, leva calmamente malas de armas ao quarto de um hotel, no 32º andar e de lá começa a matá-los, acabando com suas vidas que começam e sepultando todos os seus sonhos.

É impossível aceitar que isso acontece como obra do homem, por maldade, crueldade ou possessão.

Só tenho para impedir minhas lágrimas, uma explicação: é o Diabo, o mesmo Diabo que tentou Cristo e que está aí.

E, para desgraça nossa, o Senhor Trump defende mais armas! Valha-nos Deus.

José Sarney

 

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