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O Carnaval das Estrelas

Não vou falar das estrelas que brilharam na Mangueira em torno de Maria Bethânia: não vi. Falo de outras estrelas que estão mostrando a cara neste começo de ano.

Na quinta-feira, depois de anos tentando detectar o que Einstein dissera existir mas ser indetectável — há cem anos, em junho de 1916 —, o laboratório LIGO da Caltech e do MIT anunciou que sentira, no dia 14 de setembro, uma onda gravitacional emitida por um encontro de buracos negros ocorrido há 1,3 bilhões de anos — isso quer dizer que num ponto a 1,3 bilhões de anos-luz, ou, como a luz viaja a 300 mil quilômetros por segundo, a 12.299.000.000.000.000.000.000 quilômetros.

Foi a prova de que as ondas gravitacionais existem. Elas são a parte mais simples de entender: se o universo fosse uma gelatina, um movimento num lado da gelatina faria toda ela tremer. Só que com as enormes distâncias, esse tremor é difícil de sentir, inclusive porque nós produzimos tremores muito mais perto o tempo todo. Então pensaram o seguinte: construir dois fachos de lazer, sincronizados, de exatos 4 quilômetros de comprimento e situados a milhares de quilômetros de distância. Se um deles mexesse diferente do outro, eles sentiriam. E sentiram: houve, durante dois décimos de segundo, uma variação de 0,000.000.000.000.000.01 milímetros!

A existência das ondas gravitacionais confirma, também, a dos buracos negros. Os buracos negros têm esse nome porque sua gravidade chupa a luz que eles emitem, e, assim, não podem ser vistos, só usados para acertar as contas do que se vê. Agora vão poder ser sentidos. Mais difícil do que sentir, da arquibancada, a respiração do Neymar na hora do gol.

Outro dia os astrônomos anunciaram ter visto a maior explosão solar do universo, uma supernova duas vezes mais brilhante do que qualquer outra explosão, 20 vezes mais luminosa do que todas as 100 bilhões de estrelas da Via Láctea juntas, 570 bilhões de vezes mais brilhante que o Sol. E toda essa energia da ASASN15lh está concentrada num núcleo de apenas 16 quilômetros de diâmetro.

Na primeira grande experiência para provar a Teoria da Relatividade, uma expedição veio ao Ceará para constatar a curvatura que o caminho da luz faz entre as estrelas e a terra, “fácil” de medir na proximidade do sol durante um eclipse, que foi comparado com outra medição na Ilha do Príncipe. No dia 29 de maio de 1919, elas fotografaram os breves instantes que mudaram a física. Em Sobral o dia amanheceu nublado, mas as nuvens se dissiparam num buraco que durou todo o tempo do eclipse; na África choveu torrencialmente, mas houve também um espaço claro no momento decisivo.

Ontem e hoje participaram cientistas brasileiros. Como sempre acreditei neles, me orgulho de, durante o meu governo, ter triplicado os recursos disponíveis para a pesquisa no País. E de, num gesto simbólico, ter ido visitar a equipe de Alberto Santoro no Fermilab, o maior acelerador de partículas existente à época, dirigido pelo Professor Lederman, que acabara de ganhar o Nobel de Física. Como Lederman me disse, quebravam caixinhas para ver o que tinha dentro, e sempre achavam outras, que iam quebrando a medida que iam surgindo…

 

José Sarney

 

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