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Meu irmão Evandro

Ligava-me ao meu irmão Evandro uma profunda amizade e um querer bem que ia além da irmandade. Uma coisa principal levava para esse estreito afeto: éramos da mesma idade, eu mais velho que ele apenas um ano e vinte dias. Crescemos com o mesmo tempo que regula nossas vidas. Infância juntos, juventude também e, quando chegamos à maturidade e os caminhos levam as pessoas a seus respectivos destinos, a política nos aproximou mais ainda, na convivência diária das lutas da Oposição, onde tivemos que abrir nossos próprios espaços, ao lado da literatura, que nos congregou no grupo da Guanabara, onde ele fulgurava precocemente como um grande poeta.

Ficou célebre nessa época de sonetos um que ele escreveu, O Urubu, que começava: “No topo dessa árvore sem fruto / Vejo-te urubu, pássaro horrendo / Na aberração da tua dor trazendo / A vestimenta do teu próprio luto.”

Grande orador, aos dezoito anos era a estrela mais aplaudida dos nossos comícios. Corajoso, agressivo, não recusava o bom combate das refregas da política daquele tempo, em que se lutava mais com as palavras do que com as espadas dos golpes eleitorais.

Boêmio, vivia como os poetas do século XIX, em que ser literato importava numa vida de inspiração aventureira. Foi também um grande cronista. Dispersas e perdidas nos jornais do século passado estão peças antológicas, que escrevia sobre o cotidiano e sobre a luta política, comentando fatos e atacando adversários.

Quando comecei minha carreira, com a ambição de ser Governador, nós dois saímos pelo interior, com uma carta manifesto na mão, injusta e violenta como são todos os instrumentos levados pela paixão, percorrendo feiras e ladainhas de festa de igreja, trepados numa tosca mesa ao acaso encontrada e lendo para conscientizar o povo da motivação de nossa luta. Assim, elegeu-se deputado estadual e eu elegi-me federal. Nos Anais da Assembleia estão guardados discursos brilhantes que ele proferiu nessa casa.

Serviu à administração pública, sendo Secretário de Eugênio Barros, seu compadre e por quem tinha uma grande admiração.

Ainda no colégio apaixonou-se por uma colega, Aglaé, mulher de virtude, dedicada, exemplar esposa e dona de casa, suportando todas as vicissitudes de um político, um poeta, um boêmio e uma extraordinária inteligência. Constituíram uma bela família. Tinha uma memória privilegiada e sabia de cor sonetos e poemas dos seus escritores prediletos, enchendo de alegria nossas tertúlias.

Foi Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado e membro da Academia Maranhense de Letras, onde, ao lado de Ivan Sarney e de mim, constituiu uma tríade rara, ao mesmo tempo e numa mesma academia.

Em São Luís, quando estávamos no liceu, morávamos num quarto de aluguel em frente da fábrica Santa Amélia, na casa de Dona Sérgia, Dona Lídia Candido e Pedro Costa. Outro dia, em companha de Kátia Bogéa, visitando os trabalhos de recuperação da Santa Amélia, quis rever o espaço da nossa infância; e ele tinha desaparecido nas transformações de um escritório. Morreu antes da gente, e senti uma saudade que me deixou lágrimas e a garganta soluçando escondida para que ninguém visse.

Na Rua da Madre Deus, onde ficava nosso quarto, íamos comprar nosso jantar – um pão aberto com açúcar no meio — na Padaria Macieira, do avô de quem viria a ser minha mulher, Marly.

Ao beijá-lo no seu caixão senti passar toda nossa vida em conjunto e juntos, lembrança também de seus momentos de extrema dificuldade, seu sofrimento final, longo e de dor, levado para a eternidade,

Não podia terminar estas palavras sem testemunhar seu amor a São Bento, sua terra. Nos últimos anos sua grande alegria eram longas conversas com Vavá Melo, historiador e cronista da cidade, os dois pelo amor e pelo encanto perdidos nos verdes daqueles campos, onde ele deve estar encantado nas águas, no cantos dos vim-vins e na beleza da canarana, do arroz brabo e do andrequicé.

José Sarney

 

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