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Meu boi-pelado

Quando o boi foi avançando pelo interior do Brasil, foi criando uma cultura muito particular.

Capistrano de Abreu fala do surgimento de “uma corrente interior, mais volumosa e mais fertilizante que o tênue fio do litoral”. São dois fios, um que parte do sul, de São Vicente, com bandeiras e entradas; outro segue o São Francisco, e daí alcança o sertão mais árido. “Um dos mais antigos passava por Pombal, no Itapicuru, Jeremoabo no Vaza-barris, e, atingindo o São Francisco acima da região encachoeirada, chamou o gado da outra margem. Esta, pertencente a Pernambuco… [No] Parnaíba, consumou-se aqui a passagem de um para o outro, e encontraram-se os baianos com a gente vinda do Maranhão.” Parte de nosso interior tinha sua comunicação exclusivamente com a Bahia, como Pastos Bons.

Houve conflitos com os índios, mas “foram menos sanguinolentos que os antigos: a criação de gado não precisava de tantos braços como a lavoura, nem reclamava o mesmo esforço, nem provocava a mesma repugnância”. “Os primeiros ocupadores do sertão passaram vida bem apertada.” Apesar disso, acrescenta Capistrano, essa gente tem “pelo exercício das fazendas de gado tal inclinação que procura com empenhos ser nela ocupada, consistindo toda a sua maior felicidade em merecer algum dia o nome de vaqueiro.”

Na passagem do século XVII para o XVIII, Antonil dizia que as cabeças de gado da Bahia passavam de meio milhão, e oitocentas mil eram as de Pernambuco.

Que gente era essa, de nossa parte, com essa vocação inevitável de vaqueiro? Eram os açorianos, gente ainda hoje devota ao gado, ao boi que enfeitam quando vai morrer. Para onde foram, levaram sua cultura, que no Brasil deu várias formas de festa, inclusive o nosso bumba-meu-boi, o boi-de-mamão de Santa Catarina e o boi-bumbá do Piauí

Doutora Mundicarmo Ferreti publicou, em seu livro Um caso de polícia — pajelanças e religiões afro-brasileiras no Maranhão, uma notícia de nossos jornais de 1915:

Percorreu, este ano, as principais ruas da capital, naquela algazarra infernal, que faz as delícias da garotagem, o boi, o bumba meu boi, escandalizando a nossa civilização e perturbando o sossego público. De tempos que essa brincadeira foi relegada para os pontos afastados da urbe, de vida menos intensa e agitada e de menor progresso e desenvolvimento. Mas agora o boi investiu contra a cidade e vai à praça João Lisboa, ao nosso principal salão público, ponto mais central, mais cuidado do município, e aí, à vontade, se exibiu na sua grotesca e brilhante rudeza. Coisas da época.”

Esse tipo de julgamento preconceituoso acabou proibindo o boi de entrar na cidade. Ficou segregado e tido como “brincadeira de caboclo”, e só podia chegar até o João Paulo. Comigo, quando governador, ele chegou, com seus cantadores, acompanhado do tambor-de-crioula e do tambor-de-mina, ao Palácio dos Leões, para não mais sair de nossas alegrias maiores, e hoje é o maior folguedo popular do Maranhão, inclusive o boi-pelado, aquele sem muito enfeites e pobre.

Mas chamar um boi de pelado dá briga e ofensa. Vi um princípio de rixa, quando na Encruzilhada chamaram o boi que brincava de “pelado”. O amo zangou e respondeu:

“— Chamaram o meu boi “pelado”,

Toda a ternura se zangou,

Boi-pelado é a mãe,

É a mãe de quem chamou.”

E a brincadeira continuou…

 

José Sarney

 

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