Início » Artigos » Meditação sobre a Sexta Santa

Meditação sobre a Sexta Santa

A Sexta-feira Santa contém o grande mistério da encarnação, da morte e da ressurreição. Deus assume a condição humana, vive, sofre e se submete à suprema das humilhações: morre pregado na cruz, entre dois ladrões.

A morte vem porque Ele nasceu: é o mistério da encarnação. Morre porque viveu: é o mistério da vida. E ressuscita porque, se por amor aos homens veio à Terra, por amor dos homens da Terra parte. Diz São João que Ele amou os homens até o fim: “in finem dilexit eos”.

Nada mais difícil e mais fácil do que a fé. Acreditar, fugir à dúvida e encontrar a “paz interior”. Nesta paz está a síntese do cristianismo. E o abandono da violência, a capacidade de perdoar, aceitar os mandamentos, praticar as virtudes, enfim, ser cristão. Nesse estágio o homem estará livre de todas as tensões e, transformado, verá a face de Deus, claramente.

Não existe nenhuma passagem do ministério de Cristo em que Ele pregue um modelo de sociedade ou de Estado.

Toda sua doutrina se dirige ao homem: transformá-lo, arrancá-lo do pecado. E o que é o pecado? É tudo aquilo que agride a consciência do bem. O homem cristão transformará a sociedade e não o contrário. Essa, a força do cristianismo.

A Igreja agregou, à pregação de Cristo, uma doutrina própria. E grandes serviços prestou à humanidade. Durante a sua sofrida existência, enfrentou a perseguição e o martírio, foi a Igreja das Catacumbas. Depois da conversão dos imperadores romanos, transformou-se em religião de Estado e viveu a fase sombria da Inquisição. Nos tempos modernos, sofreu a perseguição marxista e desenvolveu mais aceleradamente sua doutrina social. Dividiu o seu ministério entre a transcendência e o temporal. Enfrentou as mudanças profundas da humanidade, as conquistas da ciência, da técnica, a sedução dos prazeres redescobertos na fatuidade dos tempos atuais.

A crise do cristianismo, contudo, é grande. Avançam o ateísmo, o crescimento das seitas, o abandono da prática. As receitas fáceis atraem mais que o mistério profundo.

Não podemos esconder essa realidade com paliativos e justificativas, ou afirmações como “um cristianismo minoritário, mas rejuvenescido” ou “um agrupamento de homens de fé, e livres e conscientes da importância e dos riscos da sua adesão a Cristo”. Considero a missão da Igreja universal destinada a mudar toda a humanidade, mudando o homem. Voltar às suas a origens, abandonar o Deus temporal, ideológico, envolvido com teorias econômicas e doutrinas sociais. A Igreja não é uma seita.

Mais do que nunca, o homem moderno precisa de Deus. É a hora do ministério da transcendência.

Hegel falou, em 1802, numa “Sexta-feira Santa especulativa”, anunciando a descoberta da morte de Deus. Nietszche assumiu por nós a autoria desse assassinato: “Deus morreu. Nós o matamos.” Assim também pensaram Marx e Freud.

Deus está vivo. A Sexta-feira Santa é não o dia da morte, porque Deus não morre, mas da ressurreição. E sem ressurreição não há cristianismo, como dizia São Paulo, esse São Paulo que afirmava: “Desejo ser desatado da carne, e estar com Cristo; mas permanecer em carne é necessário, por amor ao próprio Cristo.”

 

José Sarney

 

Leia também: