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O Massacre do Alto Alegre

As Edições do Senado Federal acabam de publicar um livro importante para a historiografia do Maranhão. É a descrição de uma tragédia. Trata-se de O Massacre do Alto Alegre, do Padre Bartolomeo da Monza, muito bem traduzido por Sebastião Moreira Duarte e com excelente introdução de Antonio Carlos Lima.

Logo no começo da República, em 1895, os capuchinhos lombardos abrem em Barra do Corda uma casa paroquial e uma escola, implantando a Missão do Maranhão. Entre 22 aldeias de guajajaras, canelas, grajaús e mateiros, em Alto Alegre, instala-se a Colônia de São José da Providência. Ali também surge um colégio dirigido pelas Irmãs Capuchinhas.

Desde 1859 havia um “diretor dos índios” em Barra do Corda. Um deles, João Cunha Alcanfor, usando os bens e o trabalho dos índios e tratando-os com crueldade, fora atacado, perdendo a vida um seu cunhado. Antes e depois da chegada dos padres, os atentados se sucedem.

Os capuchinhos não entendem o que se passa. Têm uma visão angelical: “Em Alto Alegre tudo era harmonia”, escreverá padre Bartolomeo. A realidade era diferente. Antonio Carlos Lima encontrou, na Igreja do Carmo de São Luís, carta de um deles: “…obtive 42 meninos, seis dos quais fugiram…” Entretanto, eles exercem poder total sobre os índios, punindo-os severamente por qualquer falta. Assim, prendem um chefe, João Caboré, por adultério. Este promete vingança.

Um incidente precipita a tragédia: em janeiro de 1901 há uma epidemia de sarampo, e, de 84 meninos e 22 meninas do colégio, 28 e 22 morrem, em meio aos gritos de desespero de suas mães. No dia 13 de março os índios, chefiados por Caboré e outro chefe, Manuel Justino, atacam. São mortos 4 frades, 7 freiras, várias crianças, mais de 50 pessoas “dedicadas à colônia” e mais de 200 “cristãos das redondezas”.

A notícia chega a Barra do Corda no dia seguinte, por meio de um terceiro chefe, Pedro de Araújo, que, convidado, não se juntara ao ataque. Dois proprietários da redondeza fazem uma primeira incursão e encontram 600 “selvagens” celebrando o massacre. Formam-se uma primeira, uma segunda expedições, que não conseguem chegar à colônia. Uma terceira, já em abril, prende os chefes e vários índios.

Apesar do medo que toma conta de Barra do Corda e Grajaú, o governador João Gualberto Torreão da Costa age com moderação. Mas Padre Bartolomeo da Monza o acusa de ter forçado o voto do júri, que concluiu pela culpa e pela inimputabilidade dos índios.

A edição resgata essa história. Hoje se compreende o conflito entre o missionário que deseja impor sua fé e sua cultura e a resistência do indígena em mudar, dando razão a este. Mas não era assim naquele tempo, e o tom do livro é de perplexidade e sentimento de injustiça.

O medo dos índios foi um sentimento que perdurou. Minha primeira lembrança é de olhar, pela fresta da porta de minha casa, a fila de índios que entrava em Pinheiro, enquanto todos se escondiam e fechavam suas casas e minha mãe nos chamava para dentro. Mas eles vinham em paz, para buscar mantimentos, como sempre faziam quando a caça e a coleta dos produtos florestais escasseavam.

Na tradição oral de Barra do Corda, até hoje recorda-se, com revolta, o massacre dos frades e das freiras. Entre elas, uma quase adolescente, Perpétua, que não teria sido morta, mas levada floresta adentro por um índio que por ela se apaixonara. Foram feitas várias expedições para resgatá-la.

Conta-se que se encontrava muitas árvores, separadas por léguas, talhadas nos troncos: “Por aqui passou a infeliz Perpetuazinha.” Criaram-se lendas: foi morta; foi levada para a Serra do Piracandú; que quiseram trazê-la de volta e ela recusou, pois já tinha três filhos e por eles ficava.

E nas matas, em noites escuras, ouvia-se seu grito: “Rezem pela Perpetuazinha.”

 

José Sarney

 

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