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Mário Soares, fundador do Portugal moderno

Com Mário Soares morre o grande estadista que marcou a vida do Portugal moderno, sendo mesmo o extraordinário fundador deste país que se tornou uma nação europeia e o teve como condutor e símbolo.

Meu primeiro contato com Mário Soares foi quando, eleito Presidente da República, ele também Presidente de Portugal, me chamou ao telefone em agosto de 1985, pedindo-me que no meu discurso, que deveria proferir em setembro, abrindo a Assembleia Geral das Nações Unidas, cobrasse a desocupação de Timor Leste — uma possessão portuguesa — pela Indonésia, hipoteca da Guerra Fria. O movimento de libertação era frágil e Xanana Gusmão, seu líder, estava preso. Foi Mário Soares quem, com sua conhecida coragem e obstinação, não deixou morrer esta causa — e hoje Timor Leste voltou a ser parte da Comunidade de Língua Portuguesa.

Mário Soares lutou bravamente contra Salazar, foi preso doze vezes, passou três anos encarcerado e sua bravura e convicção não se abalaram. Com a morte de Salazar e a caída da ditadura, no momento em que, após a Revolução dos Cravos, o comunismo quis transformar Portugal em uma Cuba na Europa, foi ele quem assumiu a resistência, evitando que Cunhal e os Capitães de Abril implantassem o socialismo de estado, o que teria consequências imprevisíveis na segurança de toda a Europa. O mundo ficou a dever-lhe o enfrentamento que evitou.

Construiu o Partido Socialista e surgiu como o grande estabilizador da vida portuguesa, pacificando e consolidando a democracia. Mantendo a coerência de sua vida inteira, apressou e liderou o processo de descolonização da África, lutando para ali também chegarem a democracia e a liberdade.

Assumindo com sua visão de estadista europeu e mundial, iniciou a luta pela entrada de Portugal no Mercado Comum Europeu, movimento vitorioso, e iniciou a fundação do Portugal moderno, hoje uma pedra lapidada e centro de turismo do mundo inteiro. Construiu as bases de um Portugal que tinha o peso da história e se preparava para integrar-se à Europa.

Mário Soares se transformou no presidente de todos os portugueses. Sempre presente nas grandes causas, foi português e foi cidadão do mundo. Ninguém o excedeu na coerência e na dignidade, e ninguém teve o mesmo respeito mundial.

Foi um grande amigo do Brasil, pelo qual tinha amor. Era o maior de uma geração que compreendia como se entrelaçavam o passado e o presente de Portugal e Brasil. Defendia que um Portugal europeu não podia deixar de ter obras voltadas para nosso país. Aqui era uma presença permanente.

Ao Maranhão veio duas vezes, a segunda ligada a um acontecimento histórico: aqui criamos, eu, ele e todos os presidentes dos países lusófonos, o Instituto da Língua Portuguesa, no Palácio dos Leões, em 1989. Eufemismo que utilizamos para poder criar a comunidade das nações de língua portuguesa em face das sequelas que ainda restavam das lutas coloniais, e que hoje é a CPLP, Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, que nos reúne a todos na unidade da história.

Éramos muito amigos. Com ele mantinha correspondência regular, nos falávamos permanentemente, trocando ideias sobre o mundo, o Brasil e os problemas de nosso tempo.

Liguei-me também à sua família, seu filho João Soares, que foi prefeito de Lisboa, sua filha Isabel, brilhante educadora, por quem temos grande carinho, e sua mulher Maria Barroso — mulher excepcional, brilhante, grande artista e pessoa humana extremamente bondosa. Eles se completavam num casal unido pelas ideias, pela solidariedade, pelo amor por mais de cinquenta anos. Quando ela faleceu, há um ano, ele também morreu para a vida. Disse-me então: estou destroçado.

Temer fez um gesto de quem tem a visão da história e da importância de nossas relações com Portugal e compareceu às suas exéquias. Sabendo das minhas ligações e amizade com Mário Soares, convidou-me a acompanhá-lo e comigo foi de extrema delicadeza.

Deu-me a oportunidade de estar ali nos Jerônimos, diante da relíquia do corpo de tão grande amigo. Preso de dois sentimentos antagônicos: da dor pelo seu desaparecimento, pela sua falta, pela ausência de sua companhia, com a sua morte; e da alegria de poder derramar duas lágrimas — por estar ouvindo o hino português e os réquiens de Mozart e Fauré, a voz de Mário Soares na assinatura do tratado de adesão à Comunidade Europeia, a voz de Maria Barroso recitando os dois Poemas de Amor da Hora Triste, de Álvaro Feijó —, e de prestar a última das homenagens ao estadista de quem tinha orgulho de ser amigo, entregando ao solo português o corpo do maior de seus homens públicos, exemplo de combatividade, de coragem, de intelectual: Mário Soares, o fundador do Portugal moderno.

 

José Sarney

 

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