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Mário Soares faz noventa anos

É com grande orgulho que me junto como amigo à celebração dos noventa anos de Mário Soares.

Há 39 anos eu era Senador pelo Maranhão e analisava a política portuguesa num discurso. Dizia então que “o Gabinete se constituiu sob a chefia de Palma Carlos e de imediato, na sua organização, se destacou a figura do Secretário do Partido Socialista Português, Mário Soares, talvez hoje em dia o homem de maior projeção política no país, ostentando a envergadura de um estadista. A este coube, num curto espaço de tempo, primeiro, recolher dos países europeus o reconhecimento do novo governo português, segundo, iniciar o processo de descolonização…”

Portugal tinha vivido os dias turbulentos da Revolução dos Cravos, o 25 de Abril. Com a queda do salazarismo emergiram os líderes da clandestinidade, Mário Soares, Cunhal, Sá Carneiro. Sumiram os que esperavam a sucessão, como Marcelo Caetano, vacilante e sem entender o momento histórico. Apareceram os capitães alucinados da primeira hora.

Quando tudo era desordem, e Alçada Baptista me dizia que Portugal tinha tomado férias, surgiu a figura extraordinária de Mário Soares, com a respeitabilidade de uma vida de cárceres, ideias e convicções, que enfrenta e evita que o país caia na órbita do mundo comunista, defendendo o socialismo com liberdade e a manutenção de Portugal dentro da Otan, ao lado do mundo ocidental. Essa decisão de coragem e bravura não pode ser medida com o tempo, mas naquela época as contestações à sua liderança e às suas posições quase lhe roubaram o futuro político.

O jovem revolucionário, o contestador sem tréguas de Salazar, o defensor da liberdade, mantinha sua coerência. Ele tinha a noção de que, para matar a ditadura, não se pode pagar o preço da liberdade. Ei-lo a enfrentar os capitães, a lutar contra o terror e contra a fragmentação da sociedade lusitana. Um país pequeno não pode ter fraturas.

Depois de tantas lutas surge Mário Soares, primeiro-ministro, chefe de governo, enfrentando imensas dificuldades. O Governo com minorias parlamentares não lhe foi fácil. O futuro lhe guardava a oportunidade de exercer em toda sua plenitude o seu talento de estadista, quando chegou à Presidência.

Então o aprendizado de longa vida de político, da clandestinidade às decisões do Estado, das ideias à ação, lhe assegura ser o presidente de todos os portugueses. Encontra uma nação dividida e pouco a pouco vai unificando-a, costurando um Portugal moderno, que ingressa na Comunidade Europeia com a força de uma grande liderança.

Ele foi o peregrino que viajou por todos os lugares do globo, compareceu a todos os grandes debates e problemas do mundo, sem deixar nenhum espaço vazio.

Há países grandes que têm presidentes pequenos, menores que o cargo. Há países pequenos que têm homens maiores que eles, que o fazem visível e sabem conduzi-lo à igualdade entre as nações, conceito que está na Carta das Nações Unidas mas que na verdade jamais é praticado.

Fez a presidência ao seu estilo, dando-lha a dimensão de magistrado, de conselheiro e de consultor nos assuntos nacionais que a Constituição lhe assegurava. Dois mandatos fizeram o estilo Mário Soares. Seriedade e equilíbrio, prudência, capacidade e virtudes de grande estadista. Sua figura extrapola seu país para ser um homem da Europa e do mundo, mas é um europeu que sabe que a importância de Portugal repousa em sua visão atlântica. Foram os mares e não suas terras que fizeram Portugal e a língua portuguesa.

Mário Soares foi o político português que melhor compreendeu o Brasil, que sabe o que ele significa, que sabe que ele e Portugal, unidos pela História, não podem marchar com setas desencontradas.

A rica biografia de Mário Soares, unanimidade portuguesa e mundial, é uma garantia. Ele deixou o poder mas permaneceu sua autoridade, sua grande figura de estadista, zelando e ajudando sua pátria.

Mário é também um grande escritor. Um homem de ideias, sabe expressá-las e defendê-las com uma linguagem límpida que faz com que por elas sejamos seduzidos e convencidos.

Compartilhamos sonhos e esperanças. Para minha mulher e eu foi uma felicidade nos tornarmos amigos de Dona Maria Barroso e do Presidente Mário Soares. E é com o sentimento de fazer parte da festa que me junto ao povo português para lhe trazer o respeito, a admiração e o bem querer da gente do Brasil.

São noventa anos a serviço de Portugal, da Europa e do Mundo.

José Sarney

 

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