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“Vende-se” e “Aluga-se”

Passei o mês de julho no Maranhão. Na rotina de matar saudades, revisitar amigos e conviver com a gente do povo, muita gente nova e poucos do meu tempo, desta geração que já está no caminho dos versos de Raimundo Correa, no célebre Soneto das Pombas, em que fala dos sonhos da mocidade e diz que “aos pombais as pombas voltam / e eles (os sonhos) aos corações não voltam mais”.

Mas meus incorrigíveis amor e preocupação pelas coisas do Maranhão não cessam de entusiasmar-me e nem tiram a força de indignar-me. Encontro o Maranhão com medo, não só o medo da insegurança como da matança que se verifica a cada fim de semana — só nas duas últimas semanas 16 mortos —, mais o medo das perseguições, das demissões em massa, da caça às bruxas e das perseguições que atingem funcionários, comerciantes, criadores, num clima de delação para abrir vagas e ocupar lugares. O temor do arbítrio, do autoritarismo, da raiva, da embriaguez que não é só do poder, mas da vingança.

O Maranhão sempre foi um Estado que respeitou a convivência e onde nunca houve clima de retaliações, nem de perseguição por posição política ou cerceamento da liberdade de opinião.

Tenho autoridade para falar sobre isso.

Tive adversários implacáveis que foram cruéis nos ataques e nas calúnias e injúrias sobre a minha pessoa, mas não posso acusá-los de perseguir outras pessoas por ser meu amigo ou eleitor. Eu fui Governador no tempo da ditadura militar, tinha em minhas mãos poderes absolutos de demitir, aposentar, propor cassações e usar o poder da polícia e do fisco para perseguir comerciantes e castigar por ódio, inveja, ideologia ou simpatia quem quer que fosse. Mas não cassei ninguém, não demiti nem persegui quem quer que fosse. Por isso a anistia não teve aplicação aqui contra qualquer ato do poder estadual — ninguém fora atingido. Não tenho inimigos e todos que se apresentaram para o ser foram por mim recusados. Não aceito inimigos e sim adversários, assim mesmo usando o direito de não permitir a entrada de voluntários nesse rol.

Mas todo esse clima que existe hoje mostra a falta de esperança do povo, que vive e sabe como era diferente nossa vida. Havia um clima de progresso, de grandes construções, do despertar o Maranhão como destino de investimentos, da visita diária de empresários nacionais.

Agora parou tudo.

O governo comunista todos sabem que não suporta empresários nem empreendedores e a todos quer asfixiar pelas ideias do Estado senhor de tudo. A Lei de Incentivos Culturais, como exemplo, deixou de ser para incentivar escritores e a cultura e se transformou numa fonte de recursos para promover o governo com festivais mixurucas; e as firmas perderam o direito de escolher a quem financiar. Só o governo escolhe e com procedimentos indevidos e lamentáveis.

O crescimento de PIB (produto interno bruto, em que se avalia as riquezas produzidas) diminuiu. Só o Maranhão, no Nordeste, teve a taxa de emprego reduzida, aumentou o desemprego — os comunistas não se incomodam.

Estão inaugurando até postes e bancos de pracinhas. O programa do leite prometido acabou, nem existe cesta básica para aliviar a fome do povo, nesse tempo de recessão em que vive o Brasil.

O Maranhão perdeu força nacional, desapareceu da República. Contam que aqui só um negócio está prosperando: a fabricação de placas com os dizeres “VENDE-SE” e “ALUGA-SE”. A cidade está cheia delas.

José Sarney

 

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