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Livraria AMEI

Tive uma imensa alegria e um grande orgulho do Maranhão, meu chão, terra que se transformou em meu sangue. Ontem visitei e descobri, no Shopping São Luís, um espaço cultural com uma grande livraria, igual às melhores do Brasil, com uma singular e inédita característica: só tem títulos de escritores maranhenses, obra e iniciativa de um grupo de idealistas, que fundaram a Associação Maranhense de Escritores Independentes — AMEI. São José Antônio Viegas, Cleo Rolim, Antônio Guimarães e mais colaboradoras e colaboradores.

Fiquei alegre, satisfeito e surpreso

Mais ainda quando verifiquei que a tradição cultural do Maranhão continua viva, presente, forte e sobrevive e meio à desilusão geral e à perda de autoestima do povo brasileiro. E o que é mais impressionante: MAIS DE MIL E DUZENTOS títulos só de escritores maranhenses. Eles estão aí, resistindo a todos os desestímulos. São de profunda grandeza os assuntos ali expostos. Todos os ramos da literatura, da poesia, da ficção — romances, contos, novelas —, ensaios, viagens, da ciência, da história, da memorialística, do direito, da medicina e tudo que possa ser de interesse cultural.

Acompanharam-me o presidente da Academia Maranhense de Letras, o grande historiador e referência do jornalismo e da literatura maranhense Benedito Buzar, e o educador Mauro Fecury, que também tem prestado grandes serviços à cultura maranhense.

Ao lado da Livraria e Espaço Cultural AMEI, um auditório, onde se realizava uma palestra sobre a “Arte da Redação” com a presença de dezenas de jovens, homens e mulheres, interessados em literatura. Repeti Shakespeare, que nos seus sonetos diz desejar ser lembrado pelos seus livros, mais do que por qualquer outra coisa, chegando mesmo a lembrar a sua amada que ela morreria e sua beleza desapareceria, mas seus versos seriam eternos.

Este espaço cultural tem eventos todos os dias e surpreenderam-me dizendo que só o meu romance Saraminda já fora alvo de dois debates e dissertações em conferências ali realizadas.

E mais surpresa: não recebem nenhuma ajuda do poder público, vivem da hospedagem do shopping, do trabalho dos associados, da dedicação dos dirigentes, sem interesse de lucro num terreno em que ninguém investe e nem toma conhecimento.

Lembrei-me da minha juventude, da realização pessoal que tive, nos 100 anos da Livraria Universal, ali na antiga Praça João Lisboa, com livros de todas as grandes editoras do mundo, tal a importância cultural do Maranhão. E ali comprei a Coleção Austral, da Espasa-Calpe, da Espanha, com os romancistas latino-americanos, e lendo-os aprendi o espanhol e a conhecer os nossos vizinhos, Miguel Otero, César Vallejo, José Eustasio Rivera, Rómulo Gallegos, Juan Rulfo, a literatura de onde depois surgiu Gabriel Garcia Márquez.

Hoje saúdo a livraria AMEI e os novos escritores do Maranhão, de onde, quem sabe, no futuro pode surgir um Nobel.

José Sarney

 

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