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Judas e a semântica

Na semana passada, tivemos a oportunidade de fazer algumas divagações sobre a semântica e a vida das palavras. Não é que agora, sem que fôssemos videntes, esta semana foi ocupada por justamente uma palavra que mudou de moda rapidamente.

A história dessa palavra começou com o “colaborador” Judas Iscariotes. A palavra “judas” tomou o significado de seu ato. Nos séculos passados, ela transformou-se em “traidor”. Em 1964 —revolução ou golpe, ao gosto de cada um —, a palavra era “dedo-duro”.

Hoje, quando começaram as denúncias de corrupção, a palavra delação ainda não estava com a bola toda que depois veio a ter. Levamos dois anos com todos elogiando os “delatores” e com os jornais falando em delação. Mas, como essa palavra foi considerada muito pejorativa, de repente, substituíram a palavra “delator” pela palavra “colaborador”. E agora o “delator” ficou antiquado e desonrado, e o “colaborador” exaltado e santificado.

Nós, aqui, no Maranhão, tivemos a infelicidade de conviver com um deles, cujo nome, na História do Brasil, ficou como um anátema: Joaquim Silvério dos Reis. Não é que o vilão, não podendo mais morar no Rio de Janeiro, pela hostilidade que a população lhe tinha, resolveu vir para cá, onde viveu durante muitos anos — era uma época em que não tínhamos televisão, nem noticiário em tempo real —, sem ser identificado como aquele homem que, na Devassa que resultou no enforcamento de Tiradentes, delatara a Inconfidência Mineira. As suas vítimas não se limitaram à independência do Brasil e à cabeça de Tiradentes, mas incluíram Cláudio Manoel da Costa, grande intelectual, que morreu assassinado ainda na prisão em Vila Rica, palco dos acontecimentos; Marília de Dirceu, através do seu autor, Tomás Antônio Gonzaga, Alvarenga Peixoto, e muitos outros condenados a degredo em África.

Tivemos também a infelicidade de convivermos com outro “delator” — àquela época chamado de “traidor” —, Lázaro de Melo, que, na Revolta de Bequimão, denunciou às autoridades o esconderijo de seu padrinho, Manuel Beckman, num povoado no interior de Vitória do Mearim.

Quando os soldados, com ele à frente, chegaram lá para prender o nosso Revoltoso, ele, ao ver o afilhado que o entregara, exclamou: “Quem diria!” Por isso mesmo, esse lugar ficou conhecido, através dos tempos e até hoje, com o nome de “Quem-diria”.

Bequimão foi enforcado aqui em São Luís. Rubem Almeida — muito criticado por isso — encontrou um lugar na Beira Mar e, com o pé direito, riscou uma cruz. Determinou: “Foi aqui que enforcaram Bequimão!” Sua opinião prevaleceu, mas hoje o lugar está abandonado e esquecido. As novas gerações, sem saber quem foi Bequimão, passam ali e encontram um monumento pequeno, cheio de mato ao redor e vão adiante sem reverenciá-lo. Ninguém quer mesmo saber onde foi sepultado Lázaro de Melo.

Joaquim Silvério dos Reis, para sorte nossa, numa dessas reformas a que submeteram a Igreja de São João, onde ele foi enterrado, teve a lápide de seu túmulo destruída, não se sabendo, graças a Deus, onde está seu corpo. Restou-nos apenas a desgraça de recebermos os ossos dele.

Esta semana, todos nós, no Brasil inteiro, fomos dominados na televisão por uma fileira de “colaboradores” — nada de “delatores” —, premiados com a glória de contribuírem para a pureza dos costumes. E cada delação é uma novela, que as nossas televisões devem agora reproduzir em capítulos para manter a grande audiência nacional.

E nós, aqui no Maranhão, ficamos com os “colaboradores” Joaquim Silvério dos Reis e Lázaro de Melo.

Tancredo, uma vez, quando Ulysses queria que ele fizesse uma denúncia dura contra o discurso do Brigadeiro Délio Jardim de Matos, lembrou-se do grande herói do seu Estado mineiro e saiu-se com uma bem a seu jeito: “Ulysses quer ser o novo Tiradentes, mas com a minha cabeça”.

José Sarney

 

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