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José Chagas, o feiticeiro lírico

São Luís encolheu nesta semana, ficou menor. Perdeu bastante do seu perfume de cravo e canela, lírio e jasmim. O vento leste de João do Vale trouxe uma rosa amarela para enfeitar as canções, os sonetos, os versos — arte de Deus — com que Chagas nos iluminava os telhados e as ruas de solidão destes anos demais de todos nós: São Luís. Chagas encantou-se por ela. Desfrutou seus seios, fez amor além do orgasmo, para ser sublime e encontrar a transfiguração do corpo, a paixão do profano sagrado e morrer sonhando com corpo, com alma, com morte, que se morre de amar. José Chagas deixou tudo, sentimentos de pó, as chinelas do seu nascimento e entregou-se à São Luís dos amores achados.

Já fiz antes a observação de que a origem grega da palavra poesia — poiesis — significa fazer, no sentido, explica Sócrates, de criar, gestar o novo, na busca da imortalidade. No seu grande estudo A Herança de Apolo, Geraldo Holanda Cavalcanti cita Octavio Paz, para quem o papel da poesia é tornar sagrado o mundo: “A operação poética não é diferente do feitiço e de outros processos da magia.”

Digo isso para explicar que José Chagas foi, antes de mais nada, um sacerdote da criação, no que ela tem de mais profundo: povoar o mundo de poesia.
Definitivo desde os poemas de verso livre e os sonetos perfeitos de Canção da Expectativa : “E às margens dele permanecem mortas / minha força inventiva que era tanta / que eu mesmo não sei mais como é que pude / criar um mar inteiro nesse açude.”

Chagas foi admirado pelos maiores escritores brasileiros. João Cabral de Mello Neto — a quem dedicara O discurso da ponte — dizia que o maior poema épico contemporâneo era O Caso da Ponte do São Francisco, poema que, se baseado em circunstâncias, o que é próprio do épico, transcende-as para explodir na magia do jogo poético: “Mas sei que quem governa / tem lá sua ciência / e que a ponte é eterna / por não ter existência.”
Sua identificação com São Luís, onde se fixou vindo da Paraíba por Teresina e Pedreiras, é profunda. A ela dedicou boa parte de sua poesia, desde Os telhados até Os Azulejos do Tempo. Ele a buscou na riqueza e na pobreza, como num voto de casamento e a encontrou nas palafitas e nos mirantes: “Olha aí a palafita / crescendo sobre a maré. / O homem que nela habita / caranguejo ou peixe é…”, e “…desses telhados de que sou cativo / desde quando a cidade assim me quis, / como se o próprio ar fosse o motivo / de todo o meu amor por São Luís, / pois que só desse sopro é que ainda vivo.”

Sebastião Moreira Duarte observou que a maior parte dos livros de Chagas — e foram muitos — não são compilações de poemas, mas se compõe de um só poema. Eu diria antes que são em geral discursos poéticos, edificações feitas de pau e pedra e vidro e telha, plantações sinfônicas: são muitos poemas num só. Assim sonetos inserem os seus quatorze versos, bem divididos em quadras e tercetos, entre várias formas poéticas, de quadras a versos completamente livres, às vezes simples palavras graficamente distribuídas.

Os Canhões do Silêncio, um desses poemas de poemas feitos, é um dos seus momentos mais altos — preciso enfatizar o mais, pois toda a obra do poeta corre pelas alturas maiores da poesia brasileira. “Não saio do meu quarto e sou levado / para além do horizonte e do seu dia, / com o tempo a correr líquido ao meu lado / um rio que transborda e que esvazia”. “O silêncio pesa fundo / como uma vontade suicida.”

Mas José Chagas cantou também o amor carnal, e o fez na forma devida, com delicadeza e erotismo, mostrando-se como sempre no pleno domínio da arte poética: “A moça amarra / seu corpo ardente / no quanto é garra, / no quanto é dente…”
Fui seu amigo desde que chegou a São Luís, éramos jovens, ele menos que eu. Desde que comecei o Jornal do Dia, que se tornou O Estado do Maranhão, contei com a colaboração de Chagas, ao lado de Bandeira Tribuzi. Ele foi sempre um cronista admirável, e suas crônicas contam a vida desta cidade que ele amou e suas reflexões sobre o mundo. Não foi somente o maior poeta do nosso tempo, mas o maior cronista brasileiro, que pagou a fama pela prisão enfeitiçada da província. Suas crônicas são antológicas e das melhores e maiores da língua portuguesa. Muitas vezes disse-lhe isto.

Já citei muito o poeta, mas não há melhor homenagem a um escritor do que dar a palavra a ele mesmo. Assim termino ainda com seus versos: “A morte fica presente / no lugar do que se finda, / por mais que o mundo a afugente / é ela que fica ainda.”

 

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