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Jesus Vive!

Refletindo sobre uma palavra do Evangelho segundo São João — “Sabendo Jesus que chegara Sua hora de passar deste mundo para o Pai, como amasse os seus, que estavam no mundo, amou-os até o fim (João 13)” — num de seus mais belos sermões, o do Mandato, o Padre Vieira tem um achado: entre a Ceia e a Ascensão há mil horas.

E, nessas curtas horas, nesses curtos dias, a culminância do Amor: a Paixão, a Morte e a Ressurreição de Nosso Senhor. Mas esses acontecimentos transcendentais ficam, muitas vezes, num segundo plano, perdidos, no nosso tempo da comunicação instantânea, diante das misérias do mundo.

No tempo da minha infância o Menino Jesus era meu companheiro, colega e cúmplice em minhas travessuras. Jesus Cristo morava na minha cidade de São Bento, onde despertei para a vida. Ele estava na igreja entre as colunas pintadas imitando mármore. Nos tempos da Paixão eu chorava com a revelação de que homens maus o tinham crucificado, pregado na Cruz, trespassado por lança, e Judas o traíra.

O tempo da Quaresma era a oração e o silêncio em que os nossos jogos e sorrisos não podiam ser exuberantes porque Jesus iria morrer. Haviam a procissão do Encontro, o Bom Jesus da Cana Verde, o lava-pés, o canto da Verônica e as estações da Paixão.

Tudo tinha um sentido misterioso onde a razão não entrava, só a emoção. A Igreja governava as nossas referências, o domingo, as ladainhas, o rosário, as nossas súplicas e conversas com Deus. Minha mãe nos ensinava tudo sobre o segredo da vida, do céu e da terra, a Paixão e a Morte de Jesus.

A lembrança que tenho desses dias enevoados pelo tempo é da cor do roxo que cobria as imagens e do preto que vestia as mulheres. Tudo ali cheirava ao século XIX. A vida girava em torno da religião e da família. A face e o som mais visíveis eram os sinos, que tocavam alegria nas aleluias e dobravam nos finados. Era assim que eles começavam e terminavam a semana, no clarão da Ressurreição.

Era como se Cristo estivesse sendo supliciado em São Bento. A cidades era somente recolhimento e fé. Os meninos eram proibidos de falar. As casas não deviam ser varridas e todos andavam, na minha memória, como sombras que deslizavam tristes, responsáveis pelo martírio do Cristo.

O jejum e a abstinência, a obrigatoriedade de alimentar-se somente de peixes eram hábitos intransponíveis. Não era o bacalhau das Quaresmas portugueses que herdamos, mas os peixes dos lagos que faziam a beleza das águas naqueles campos, sempre peixes pequenos que Deus criou em abundância, como dizia Vieira, para alimentar os pobres que são muitos.

No Sábado de Aleluia, a malhação! Os ensaios do coro dos meninos que deviam anunciar a Ressurreição: “Jesus já não morre mais / Prostrai-vos, ó mortais / Junto aos céus eternais / Celebrai o rei da glória / Cantai, cantai / A vitória / De quem vos abre as prisões.”

A Páscoa da minha infância era sagrada, não tinha chocolates, só comunhão e confissão.

Mudou a Semana Santa. Mudaram os tempos e nós mudamos. Mas permanece eterno esse “mistério”, o mistério do Deus crucificado que encheu a minha vida e inspira a minha sempre fé. Tudo mudou, menos o menino Jesus da minha aldeia e o Cristo da minha vida. Jesus vive!

José Sarney

 

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