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Guadalajara

Passei alguns dias em Guadalajara, convidado para fazer a conferência de abertura da Feira Internacional do Livro. Falei sobre “O Livro e a Internet”.

A discussão, atual e universal, vai além da dúvida sobre se o livro digital vai fazer desaparecer o livro tradicional feito de papel e tinta. A sociedade de comunicação, de que todos nós participamos, provoca uma transformação que vai além dos nossos costumes e nos traz uma indagação instigante sobre o que acontece com o nosso modo de pensar. Envolvidos por ela, não sabemos suas consequências ou sua duração. A escrita, o livro e a literatura evoluíram por muitos séculos, marcando momentos importantes da história da humanidade.

Alain Peyrefitte, que foi meu amigo e presidente do conselho editorial do Le Figaro, fez-me uma pergunta instigante: “Como será a cabeça dessa geração que vai da cultura oral para a visual sem passar pela cultura escrita?”

Mas voltemos a Guadalajara, onde se realiza a maior feira do livro em espanhol do mundo, rivalizando em projeção com a de Frankfurt — e me disse a escritora e governadora Beatriz Paredes que no próximo o ano ela passará a alemã. Ali já estive três vezes, a primeira delas em companhia de Garcia Márquez, que fez a fala inaugural, Vargas Llosa, Nélida Piñon e outros grandes escritores mundiais. Outra vez encontrei-me lá com Octavio Paz, Prêmio Nobel de Literatura, também meu amigo, que sempre teve palavras generosas sobre meus livros — quatro deles traduzidos pelo Fondo de Cultura Economica, o último A Duquesa Vale uma Missa, exposto no estande da editora. Reencontrei agora o grande historiador Enrique Krause, autor de uma fantástica coleção sobre os presidentes da Revolução Mexicana, Biografía del Poder, e tive a felicidade de rever o grande novelista, já bem velho, vencendo um grande derrame, Fernando del Paso, um ícone das letras hispânicas. E conheci o ganhador do Prêmio Cervantes, Emmanuel Carrère, filho de Hélène Carrère d’Encause, Secretária Perpétua da Academia Francesa — que me recebeu ali numa sessão memorável, em que tive a oportunidade de falar naquele templo de mais de três séculos. A conheci por intermédio do grande e saudoso amigo, Maurice Druon, que uma vez trouxe para conhecer a terra de seu avô, Odorico Mendes.

Em Guadalajara tive a assistência diária do grande artista mexicano Jesus Guerrero, outro velho amigo, de quem recebi na dádiva de sua generosidade duas obras belíssimas, que enfeitam minha casa em Brasília.

Guadalajara tem um grande carinho pelo Brasil. Não nos esqueçamos que foi nessa cidade que o Brasil fez a base para ganhar a Copa de 70. Eles até hoje não esquecem que lá jogamos muitas partidas, sempre com o calor de sua entusiasta torcida. Para fazer uma comparação, Guadalajara representa para o México aquilo que São Paulo representa para o Brasil, não somente por sua grande importância econômica, mas como centro cultural. Também devemos ressaltar o grande e maior orgulho da cidade, a Universidade de Guadalajara, que tem 280 mil alunos em seus diversos campos. Ali, como já contei, está o Hospicio Cabañas, com as obras de Orosco, o mundial conhecido, pintor mexicano.

Assim, entre recordações e livros, volto ao Brasil, pensando no meu destino dividido entre duas paixões, a literatura e a política, sem saber para qual tenho mais gratidão, se para uma que me fez Presidente da República, se para a outra que me fez já publicar 119 títulos e membro e decano da Academia Brasileira de Letras.

José Sarney

 

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