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Festas juninas sem boi

Nova York — Aqui nos Estados Unidos, aproximando-se as festas juninas, vou sentindo uma imensa saudade do meu bumba-meu-boi, do boi do Maranhão. Estas festas, tão importantes no calendário brasileiro desde que vieram de Portugal, assumiram no Maranhão essa face luminosa das fitas coloridas, das miçangas, dos brincantes e, sobretudo, desse boi mitológico, touro negro e boi espaço e injustiça das relações sociais, numa sociedade que ainda tem raízes agrárias, mas também transpôs para a vida urbana os preconceitos, as diferenças da sorte, as paixões e as tragédias de amor.

Sempre lembro que Roseana desenvolveu os passos que dei para prestigiar a cultura popular e desde cedo se tornou a defensora de sua arte, prestigiando seus artistas pelo que são, sem nenhum intuito eleitoral ou interesseiro.

Acompanhando mais de perto o que acontece neste país, em vez de boi as pessoas se distraem, se irritam e se amedrontam com os delírios de seu presidente. Agora o mais importante é o encontro entre as duas figuras histriônicas e patéticas de Donald Trump e Kim Jong-un. Marcado e desmarcado e remarcado, o encontro se dará num hotel de Singapura, se não houver desistências de última hora, no dia 12 de junho. Na mesa parece que não estarão, infelizmente, o fim do programa de armas nucleares norte-coreanas — que os coreanos só aceitam se os americanos acabassem com o seu, o que seria uma boa ideia —, nem a paz entre as Coreias do Norte e do Sul. Os dois dirão que ganharam a disputa de cabelos exóticos, pedirão o prêmio Nobel da Paz por quem faz mais ameaças de destruição e tudo continuará como dantes no reino de Abrantes.

Trump adora uma briga e uma provocação, mas frequentemente elas se voltam contra ele. Há alguns dias ele disse que tem o poder de perdoar a si mesmo. Veio o Paul Ryan, Speaker (Presidente) da Câmara dos Deputados, um dos principais líderes republicanos, e adverte: nem pensar. Agora, na reunião do G-7, ele chegou propondo que o grupo aceite de volta a Rússia, expulsa desde a invasão da Ucrânia. A reação foi a proposta de retirar os Estados Unidos do grupo.

É claro que nisso está o pano de fundo de seu afastamento das regras da OMC, a Organização Mundial do Comércio, para seguir seu talento de negociador — com o qual já foi à falência várias vezes. Assim, tem ameaçado impor restrições alfandegárias a todo mundo “para acabar com o déficit comercial” americano e, depois da mordida, assopra. Como do outro lado muitas vezes encontra pessoas com alguma experiência — tipo Merkel ou Xi Jinping —, seu sucesso é bem relativo. E as críticas surgem também do lado americano, como os plantadores de soja que temem perder o mercado chinês para outros países, como o Brasil.

Nem toda a sua loucura, no entanto, abala a grandeza americana, com crescimento e taxas de emprego de fazer inveja a muito país.

Mas nem tudo me distancia do Brasil.

Esta semana Machado de Assis é louvado largamente pelo lançamento de “The Collected Stories of Machado de Assis”.

O New York Times diz: “Poucos autores de ficção escreveram tão afetuosamente sobre ideias, como se fossem pessoas reais; ele está sempre descrevendo como as ideias surgem e se modificam, o modo como podem perder seu curso e entrar em choque com outras.”

Machado é a glória que fica, eleva, honra e consola, como ele disse da Academia ao inaugurá-la. Glória que atinge a todos nós brasileiros.

José Sarney

 

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