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Eu rezei em Notre Dame

Quando assisti as labaredas consumindo a Catedral de Notre Dame, minha garganta começou a chorar. Os políticos aprendem a chorar com a garganta, para que o povo não veja. Meu coração apertou e não tive como conter uma profunda comoção.

É que Deus me deu a glória de visitá-la, ali ouvir belíssimas missas com canto gregoriano e concertos de música clássica. Recordo um em que o Glória de Vivaldi nos levava ao céu e Deus se revelava. Nunca deixei de visitar, nas muitas vezes que fui a Paris, a Catedral de Notre Dame. Descia a Rue de Saint-André des Arts entrando nos sebos de livros antigos, sempre em busca de algum tesouro que falasse do Maranhão ou do Brasil. Foi numa dessas buscas, numa casa de jornais e revistas velhas, que encontrei uma revista — que conservo — com um desenho de Dom Pedro II morto. Josué me disse que era desconhecido, não sei. Mas é belo.

E minha emoção ao olhar as chamas aumentava, até que cheguei à conclusão de que não tinha mais idade de assistir àquela tragédia. Passava pela minha cabeça que ali se consumia um tesouro cultural da humanidade. Não só a Catedral mas o que ela significa da História do mundo ocidental, da literatura, da beleza gótica, e de saber que Deus também a visitava.

Pensava que ali Napoleão coroara a si mesmo; que Henrique IV — depois de proferir na Igreja de Saint Denis a famosa frase “Paris vale uma missa” —, era a Notre Dame que ia com sua famosa amante Madame d’Estrées; no Notre Dame de Paris, de Vitor Hugo, com o corcunda Quasímodo; na Catedral que tinha sobrevivido ao saque da Revolução Francesa e às duas Guerras Mundiais, ao contrário da de Reims, de Dresden, de Strasbourg.

Pensei nos primeiros índios do Maranhão levados por La Ravardiére e sendo batizados com nomes cristãos — Itapocou como Louis-Marie —, que despertaram a curiosidade da Paris inteira, em busca de ver aquelas criaturas do Novo Mundo prestando reverência a Luís XIII e entregando-lhe a fidelidade das terras do Maranhão, de tal modo que o Padre Claude d’Abbeville dizia que, depois da conquista de nosso Estado, Luís seria Rei de França, Navarra e Maranhão. E só depois lembrei-me que eles foram batizados na Igreja dos Capuchos de Saint-Honoré, localizada no Faubourg do mesmo nome, e me convenci — mas não estou convencido — que eles tiveram de padrinhos Marie de Médicis, a Regente, e o Rei menino, ainda Delfim.

Deus foi generoso comigo. Entre os bens que me deu, conto este de ter conhecido, rezado e ido ao Céu no clima místico e escurecido de Notre Dame, com as luzes sendo transformadas pelos vitrais de cores fantásticas da grande rosácea de sua fachada.

Ela será reconstruída, mas será outra Catedral, com outros tempos e não o meu, em que a mirava com a alma, com o sentimento de amor e salvação, que recordo nesta Semana Santa da Ressurreição — lembrando S. Paulo, que afirmava que “sem Ressurreição não há cristianismo”.

José Sarney

 

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