Início » Artigos » Entre a alegria e a tristeza

Entre a alegria e a tristeza

O nosso estado sempre teve fama de muito festeiro.

Leio nos jornais e ouço das pessoas que a cidade já vive um clima de Carnaval há vários dias. Mas recebo uma pesquisa sobre o humor do povo e ela registra um alto grau de desencanto e tristeza.

Mais precisamente, os números são esses: “Clima de Opinião —Sentimento: envergonhado, 26%; preocupado, 20%; triste, 13%; com raiva, 11%; esperançoso, 10%; tranquilo, 6%; com medo, 5%; alegre, 2%; orgulhoso, 0%; não respondem e não sabem 6%.”

(O 1% que falta para os 100% deve-se aos quebrados que não colocaram.)

Se esse é o clima das pessoas, com sentimentos quase todos negativos, é difícil entender como a alegria começa.

Depois que Roseana, num esforço grande, restaurou as nossas festas populares, e, com muita autenticidade, iniciamos um ciclo de autoestima, o povo passou a exigir dos governos o mesmo tratamento que ela dava. Infelizmente alguns, nas suas sucessões, resolveram acabar com o incentivo aos folguedos populares.

Tivemos um tempo em que o Carnaval quase morreu. Este ano, como é de eleição, a culpa que botavam nos evangélicos desapareceu, para redimirem-se dos anos passados. E os blocos se animaram. Estes blocos que são tradicionais e que fizeram a glória dos antigos.

Para ser saudosista, vamos lembrar o Vira-Lata: “Salve a mocidade vira-lata / Como não / Quem fala de nós tem paixão…”, dizia a sua modinha, que toda a cidade cantava. O Cruz-Diabo, o Fofão e tantos que fizeram a animação de outros tempos.

Ainda temos a lembrar a picardia dos maranhenses — e isto tornou-se conhecido nacionalmente com o grande João do Vale, com o “Peba na pimenta” com os seus “Tá doendo como quê”; “Pisa na Fulô”; “Coronel Antonio Bento”, “Pipira” (“Foi a pipira do mané que beliscou… / Que a menina tá inchando / Do dedo até o pé do pescoço…”) Essa picardia era dos blocos como o Siri na Vara e recentemente o Bandida, o Máquina de Descascar Alho e outros com versos gingados do malicioso até o jocoso.

Mas mesmo com medo, enfrentando o aumento das taxas de violência e de homicídios, nós vamos esquecer por um pouco essas coisas horríveis e anunciar a vinda aí do Cacuriá, com aquela fila que não deixa de aproveitar o encostadinho, os tambores de crioula com a beleza das saias rodadas de chita, a Casinha da Roça.

Não é nova, portanto, nossa maneira de esconder a tristeza e buscar a festança. Quando existiam os bailes de máscara (como tenho saudade dos bailes de dominó de minha juventude), os clubes tinham nomes assim: “Em Suez se briga, aqui se brinca” — era o tempo da guerra de israelenses, ingleses e franceses contra a nacionalização egípcia do Canal de Suez.

Agora, para ter mais alegria, só precisa que o PH ressuscite o Bloco do Ponto.Com.

José Sarney

 

Leia também: