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Dia de eleição

O poder democrático é sempre fruto de eleições periódicas. Sem elas não há legitimidade nos governos e nas casas legislativas, o Estado de Direito desaparece. Que elas continuem, e muitas, e sempre. Este ano são 463 mil candidatos a vereador, 16 mil a prefeitos. Um mundo de gente. E, embora 60% esteja na faixa entre 35 e 55 anos, 42 candidatos têm mais de 90 anos, doze mais de cem. Gente que acredita na democracia e nas eleições.

Mas as eleições, para os candidatos, são um momento difícil. Há uma velha história que corre entre os políticos. Um deles caminhava entre velhos túmulos de um cemitério. Num, a tradicional inscrição: “Aqui repousa em paz.” Não teve dúvidas: pegou um pincel e acrescentou: “Porque jamais concorreu a uma eleição.”

Certa noite, no princípio da minha vida política, depois de estafante jornada de comícios, reuniões, passeatas, apertos de mão, manifestações de apoio e recusas enérgicas de apoio, estávamos descansando, candidatos e cabos eleitorais, quando o Cavour Maciel, aspirante a prefeito de Penalva, deu a sentença: “Quem inventou eleição está no Inferno.”

José Marques, cabo eleitoral, reagiu pronto: “Pois para mim está no Céu. Ô tempo bom! Eleitor passa bem, é abraço para cá, beijo para lá, convites para almoço, para jantar, bailes e esperanças. É a hora do já-fiz e do tou-fazendo. Já fiz isto, aquilo e mais aquilo e estou fazendo mais e mais…”

Cavour não se rendeu: “É obra do Diabo!”

Em Água Branca (atualmente Vitorino Freire), o orador da cidade era Alcides Sarmento, um homem muito falante, mas sem muita instrução. O chefe político do lugar era o coronel Pedro Bogéa. O Alcides Sarmento iniciou com a seguinte saudação ao coronel:

Coronel Pedro Bogéa, o maior reprodutor do Mearim.

Dirigiu-se a todos nós, que estávamos presentes:

Quero saudar também a ilustre comandita que hoje nos visita!

E por aí foi o Alcides Sarmento…

No tempo do Império se considerava pedir votos tão errado como hoje o comprar votos. Joaquim Nabuco visitava os eleitores, mas se escandalizava com a hipótese de ir além de expor suas ideias, e a condenação ao voto por conveniência era severa: “A prática de mendigar votos é absurda, perniciosa e está em completo desacordo com os verdadeiros princípios do governo representativo. O voto do eleitor não deve ser pedido, nem dado, como um favor pessoal. Pedir a um homem de bem que vote de acordo com sua consciência é absurdo.”

A República mudou a relação com o eleitor. Rui Barbosa, velho, vinha das eleições do Império, mas carregava a experiência da Campanha Civilista, a primeira verdadeira disputa eleitoral para Presidente da República. Já́ com a morte à vista, percorria a Bahia, pedindo votos. Ele dizia:

Vou falar baixo para que não ouçam que, nesta idade, eu ainda esteja mendigando sufrágios.

Já o deputado Vieira da Silva estava tão preocupado e receoso de derrota que não quis aceitar a vitória. Procurou-me e disse: “Aquele fulano me traiu, beltrano fez corpo mole e deu nisso: não vou ser eleito.” Com o boletim do TRE na mão, respondi: “Mas não é isso que está aqui na apuração da eleição: você está eleito.” Mas ele garantiu: “Não estou eleito!”

Foi difícil convencê-lo de que ele tinha ganhado a eleição.

Bom voto!

José Sarney

 

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