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Dessa vez ainda não

Circulou nos últimos dias uma versão de que São Luís perdera o título de patrimônio da humanidade. Felizmente, não é verdade. Mas podia ser.

O título de Patrimônio da Humanidade vem com uma série de obrigações. A cada seis anos, cada país deve avaliar o estado de conservação dos bens do patrimônio mundial sob sua guarda; e, a todo momento, há um “suivi réactif” — acompanhamento reativo — que alerta sobre os bens ameaçados e pode ter por consequência a retirada dos bens da Lista do Patrimônio Mundial — ou, em casos mais graves, a inscrição na Lista do Patrimônio Mundial em Perigo. E hoje, qual será a avaliação que se pode fazer da conservação de São Luís?

Quando a cidade foi avaliada, em 1997, há 19 anos, “foram expressas reservas sobre a qualidade da vida urbana que existirá quando o admirável programa de conservação, restauração e reabilitação estiver terminado.”

Mas hoje o que se vê é destruição, é lixo, é esgoto: são condições de vida absolutamente precárias. O que se vê é que não se vê a presença dos governos, do Estado e do Município, na conservação do centro histórico.

A ideia de proteger São Luís veio com minha geração. Aqui se cortava árvores e derrubava prédios — e construíam os poucos edifícios em altura que deformam a paisagem urbana. Fomos Bandeira Tribuzzi, Domingos Vieira Filho e eu quem, com o incentivo de Odylo Costa, filho, levantamos a bandeira de que o nosso patrimônio arquitetônico era um privilégio. Queríamos fazer um monumento às pobres mulheres da rua 28. Elas ajudaram a preservar os velhos sobradões, no seu sofrimento, dia e noite, noite e dia.

Em 1966, veio uma primeira missão da Unesco, de Michel Parent. Depois, em 1973, foi a vez de Viana de Lima, o grande arquiteto do Porto, em Portugal. Ainda era o tempo de Rodrigo Mello Franco de Andrade, o criador do IPHAN, e foi por suas mãos que, em 1974, se tombou a Praia Grande, o Desterro e o Ribeirão: 60 hectares e mil imóveis.

Com o Governo de Roseana surgiu um novo ritmo na conservação. A cidade histórica se enfeitou. Todos são testemunhas. Eu tive uma grande emoção, quando, acompanhando a então Governadora Roseana Sarney, assisti, em Nápoles, a proclamação de que São Luís é patrimônio da humanidade. O diretor-geral da Unesco, Federico Mayor, formalizou a inclusão de nossa cidade entre as grandes obras levantadas pela mão do homem.

O decreto da Unesco é mais do que um decreto. Dentro dele existe uma afirmação muito mais profunda, a de que o mundo reconhece, por intermédio do seu órgão representativo da cultura, que a história do homem na face da terra passou pelo Maranhão. Ali ele construiu um monumento de tal natureza que deve ser colocado entre aqueles lugares que tem um significado especial para a humanidade, lugares que devem ser preservados para a eternidade.

Da beleza de São Luís não se diz assim: “É este edifício”. Há edifícios que são bonitos, mas é o conjunto, o casario que se derrama ao longo das ondulações da cidade; as telhas que se juntam; o ondulado que se conjuga com o céu, e que faz da cidade de São Luís essa cidade de um encanto tão grande.

Tenho escrito sempre sobre o descaso com a cidade. Os governantes do Município e do Estado não têm o sentimento da História e da Cultura. Alguns dos defensores da cidade estão morrendo, mas enquanto estivermos vivos não a deixaremos sem amor.

Onde há fumaça há fogo”, diz o ditado popular. Realmente o Estado assumiu obrigações com a Unesco e tem de cumprir, senão a casa cai, como estão caindo os sobradões.

 

José Sarney

 

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