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De la Madrid, amigo do Brasil

José Sarney

Eu viajava de Brasília a Nova York em setembro de 1985 para abrir a Assembleia Geral das Nações Unidas. A Cidade do México sofrera um terremoto de 8,1 graus na escala Richter, com milhares de mortos. Eu tinha consciência do papel de liderança que Brasil e México exerciam e senti que era importante interromper a viagem para manifestar a solidariedade brasileira. Resolvi parar na cidade do México e o meu foi o primeiro avião a ali pousar depois da catástrofe. Foi então que conheci o Presidente Miguel de la Madrid. Comovidos diante da terrível tragédia, pude sentir toda a sua dimensão humana e de homem de Estado. Termos nos encontrado diante daquele momento de imensurável sofrimento forjou os laços imensamente sólidos da amizade que nos uniria para sempre.

Dois anos depois, em agosto de 1987, eu voltaria ao país em visita oficial. Miguel de la Madrid me aguardava com uma frase que mostrava a importância que dava a nossas relações: “O México quer ser o amigo mais próximo do Brasil.”

Já então eu pude responder: “Inicio esta viagem com a emoção de quem visita um velho amigo, trazendo os olhos ávidos de vê-lo, os braços estendidos para um longo abraço, o coração acelerado pela ânsia do encontro e as mãos apertadas longamente, trans¬mitindo o desejo de estar juntos.” Referia-me ao México, mas era uma premonição do grau a que chegariam nossas relações pessoais.

As relações entre os dois países estavam estagnadas, e havia mesmo uma surda desconfiança. O México começava a sair de uma grave crise econômica. De la Madrid enfrentou-a com determinação, habilitando o México a incorporar-se ao GATT, então o grande regulador do comércio internacional. Coube-nos vencer o espírito de competição e passarmos a uma cooperação frutífera, em que ambos os países recusavam a ideia de pagar a dívida — era o tempo da crise das dívidas externas — à custa do desenvolvimento econômico. México e Brasil tinham e têm oportunidades e problemas comuns, que podem e devem ser encarados sob uma perspectiva conjun¬ta, e foi o caminho que seguimos.

Admirador e estudioso da história e da literatura mexicana, pude naquela visita conhecer a fantástica riqueza de seus monumentos, a exuberância de seu artesanato, a categoria extraordinária de seus artistas. Tive o privilégio de conhecer pessoalmente seus escritores, e de tornar-me amigo de Carlos Fuentes e Octavio Paz.

Fixamos em Acapulco as bases do que seria chamado de Grupo do Rio, ou Grupo de Apoio a Contadora, e que foi de grande importância na solução dos problemas de América Central e Caribe.
Depois de nossos mandatos presidenciais, ambos participamos do InterAction Council,
organização formada por ex-chefes de Estado e de Governo, e atingimos um grau de proximidade que se transformou numa amizade muito sólida. Voltamos a nos encontrar várias vezes, mundo afora, e eu pude aproveitar sempre de sua cultura e de sua sabedoria.

Na intimidade Miguel de la Madrid era um homem sempre preocupado com os destinos do México e da América Latina. Como eu, acreditava que juntos — Brasil e México — temos um papel diante das futuras gerações, que não nos perdoarão se a ele renunciarmos: o desenho de uma América Latina de paz, de democracia, de justiça social e, sobretudo, integrada.

Em 1998 fui o anfitrião no Brasil da reunião do InterAction. Depois do encontro tivemos alguns dias para dedicar a nossa amizade, e pude ser o guia de Doña Paloma e Dom Miguel de la Madrid numa visita à Amazônia, ao Pantanal brasileiro e às Cataratas do Iguaçu. Foram dias de convívio intenso e extremamente agradável, em que os dois casais percorremos milhares de quilômetros juntos, na sempre surpreendente e fascinante natureza de minha terra.

Depois da Presidência, Miguel de la Madrid se dedicou ao Fondo de Cultura Económica, a que deu novo vigor, com reforma das estruturas físicas e das linhas editoriais, fazendo com que voltasse a ser uma das grandes editoras do mundo.

A morte de Dom Miguel não é sentida só no México, mas no Brasil e em todo o mundo, onde sua contribuição para a paz e o desenvolvimento econômico e social — o desenvolvimento humano —, é um valor que ficará para as futuras gerações. A mim, pessoalmente, é uma perda pessoal, que dói como a de uma pessoa próxima, mas também com a compreensão plena de sua grandeza de homem de Estado.

 

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